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 Confer�ncia de Aparecida - 2007





Disc�pulos e mission�rios de Jesus Cristo,
para que n�Ele nossos povos tenham vida.

 

DISC�PULOS PARA A MISS�O

Jesus deu in�cio a sua miss�o com as palavras do profeta: �Ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remiss�o aos presos e aos cegos a recupera��o da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um Ano de Gra�a do Senhor� (Lc 4,18-19). Depois, na �ltima Ceia, Jesus convida seus disc�pulos a continuar sua miss�o como realiza��o da vontade do Pai: �Quem recebe Aquele que eu enviar, a mim recebe, e quem me recebe, recebe aquele que me enviou� (Jo 13,20). Depois da Ressurrei��o, ao torn�-los participantes de sua Vida nova, reitera-lhes a miss�o, e lhes entrega Aquele que a tornar� poss�vel e fecunda: �Como o Pai me enviou, tamb�m eu vos envio (...) Recebei o Esp�rito Santo� (Jo 20,21-22).

Em outro momento, Jesus expressa definitivamente o car�ter mission�rio de cada disc�pulo: �Ide e fazei que todos os povos se tornem disc�pulos, batizando-os para consagr�-los ao Pai, ao Filho e ao Esp�rito Santo e ensinando-os a p�r em pr�tica tudo quanto vos ordenei. E eis que eu estou convosco todos os dias, at� o fim dos tempos!� (Mt 28,19-20). Lemos no Conc�lio: �todos os fi�is, como membros de Cristo vivo... t�m o dever de colaborar para a expans�o e dilata��o de seu Corpo, para lev�-lo o quanto antes � plenitude� (Ef 4,13)� (AG 36).

A sauda��o inicial de Paulo � Igreja de Deus em Corinto (cf. 1Cor 1,2-9) nos apresenta muita profundidade e beleza sobre nosso fato de ser disc�pulos consagrados por Cristo Jesus. Por serem configurados com Jesus no batismo e feitos membros da Igreja, nasce no disc�pulo o sentido de perten�a, pelo qual ele assume a edifica��o e a miss�o da Igreja na fam�lia e no mundo, sem esquecer os que est�o afastados, os indiferentes, os incr�dulos e at� os malfeitores com seus nomes pr�prios, pelos quais n�s todos somos respons�veis, para que a gra�a de Cristo n�o seja est�ril.

No sacramento da confirma��o, o disc�pulo, a exemplo de seu Mestre, � ungido e enviado para ser instrumento de comunh�o, a servi�o da unidade com Deus de todos os seres humanos, para ser mission�rios, anunciando a Boa Nova de Jesus Cristo, e para colaborar com ele (cf. 1Cor 3,9), que � o �Primog�nito de toda a Cria��o� (Cl 1,15), na constru��o de um mundo mais justo e solid�rio, por meio do qual vislumbremos a plenitude das promessas de Deus no Reino dos C�us, que esperamos um dia possuir.

A experi�ncia de proximidade e de convers�o que vive o disc�pulo de Jesus Cristo ao encontrar-se com ele na comunh�o da Igreja, prepara-o para dar testemunho diante daqueles que foram batizados mas n�o t�m a alegre experi�ncia da vida em Cristo, da riqueza da f�, da esperan�a e da caridade crist�s. Tamb�m o impele a sair ao encontro daqueles que t�m sede de Deus e n�o conhecem seu rosto, tanto em nossos pa�ses como nas regi�es distantes da terra. Eles o buscam, sem saber distinguir entre inten��es meramente humanas de aproximar-se dele e a iniciativa que Deus tomou, quando ele pr�prio, Criador e nosso Pai, se aproximou do homem, revelou-lhe seu rosto e seus caminhos, e lhe ensinou a viver reconciliado com ele e com os irm�os. Na plenitude dos tempos ele realizou sua promessa, enviando seu pr�prio Filho para que ele fosse nosso irm�o e salvador, constituindo-nos como seu Povo. Nele nos encontramos com Deus e com n�s mesmos, e descobrimos o sentido e o lar definitivo de nossa vida. A experi�ncia da vida nova em Cristo faz com que nos doam profundamente a orfandade e a solid�o daqueles que n�o o conhecem. N�o queremos poupar esfor�os para levar a Boa Nova a todos os que est�o distantes de Cristo, tamb�m nos confins da terra, at� onde n�o chegou a Boa Nova do Emanuel, nos pa�ses de cristandade antiga e de f� d�bil. Nos�sa voca��o � essencialmente mission�ria.

Encontrar-se com Jesus e ser mission�rio dele prepara o disc�pulo para se aproximar dos diversos grupos culturais que requerem uma nova proximidade e aten��o pastoral. Eles s�o os grupos ind�genas, afro-descendentes e imigrantes, que exigem ser mais bem acolhidos e estimados na rica pluralidade de seus valores e express�es culturais; como tamb�m na busca de uma incultura��o maior da liturgia. Da mesma forma, a pastoral urbana, e particularmente das megal�poles, deve estar atenta para encontrar novos modelos de evangeliza��o, que levem em conta esses lugares de grande densidade populacional, em muitos casos de aglomera��o e de graves desenraizamentos familiares e culturais.

Jesus Cristo chamou todos os seus disc�pulos para ser pobres de esp�rito, para abrir seu cora��o e sua vida aos dons de Deus, para ser agradecidos, para n�o p�r sua confian�a em si pr�prios, mas inteiramente no Senhor. Dessa forma, movidos pelo Esp�rito, chegaram a ser felizes cidad�os do Reino dos C�us (cf. Mt 5,3). Eles eram israelitas de muito diversa condi��o. Havia entre eles pobres e ricos, homens cultos e iletrados, homens e mulheres, s�os e enfermos. Mas todos foram chamados para peregrinar pelos caminhos das bem-aventuran�as, para ser pobres de esp�rito, para p�r-se nas m�os do Pai, tendo os sentimentos de Cristo, seu Filho e nosso Senhor. Na forma��o dos mission�rios de Jesus Cristo � uma tarefa irrenunci�vel da Igreja formar disc�pulos que compartilhem o abaixamento de Jesus, que n�o exigiu ser tratado conforme sua condi��o divina, mas optou por assumir a condi��o de servo (cf. Fl 2,5-8). Somente com esse esp�rito de profunda pobreza, pronto para confiar na for�a de Deus e n�o em sua pr�pria (cf. 2Cor 12,9s), e disposto a assumir a cruz e os encargos que Deus lhe confiar, o disc�pulo pode ser mission�rio.

Os primeiros disc�pulos contemplaram seu Mestre quando ele se apresentou, ao iniciar sua miss�o, como aquele que vinha �trazer a Boa Nova aos pobres� (Lc 4,18). N�o s� eles, por�m, mas todos os disc�pulos � tamb�m n�s � foram chamados a permanecer no amor de Cristo; de modo especial, em seu amor misericordioso e preferencial pelos mais pobres e necessitados, destinat�rios privilegiados da evangeliza��o�. Esta � uma prioridade irrenunci�vel para o disc�pulo de Jesus. Ela deve ser sinal de sua identidade e de sua credibilidade; mais ainda, ela � condi��o necess�ria para receber a heran�a do Reino (cf. Mt 25,31-46). �Por isso, imitar a santidade de Deus... n�o � mais que prolongar seu amor na hist�ria, especialmente em rela��o aos pobres, enfermos e indigentes (cf. Lc 10,25ss)�. � necess�rio que o cora��o compassivo e a caridade imaginativa do disc�pulo tornem suas as alegrias e as esperan�as, mas tamb�m as imensas tristezas e ang�stias de milh�es de homens e mulheres de nossos povos, atingidos por injusti�as e marginaliza��es em suas pr�prias sociedades. Particularmente grave � a pobreza e at� a mis�ria de muitos camponeses, ind�genas, afro-descendentes, desempregados, mendigos e meninos de rua, anci�os, e muitos outros que n�o t�m acesso ao m�nimo necess�rio para uma vida digna. �Este � um �mbito que caracteriza de modo decisivo a vida crist�, o estilo eclesial e a programa��o pastoral�. Desse modo, o disc�pulo se acha urgido a viver a aut�ntica solidariedade, conforme a Doutrina Social da Igreja, sem se esquecer de compartilhar com os pobres e abandonados a maior riqueza: a Boa Nova do Emanuel. Os rostos de desumana pobreza comovem e interpelam.

Especial aten��o merecem os grupos que animam e decidem a dire��o que tomam nossos pa�ses em mat�rias de educa��o, economia, trabalho, arte, comunica��es e pol�tica: os assim chamados �construtores da sociedade�. Principalmente eles est�o chamados a desprezar estruturas marcadas pelo pecado e a trabalhar por uma nova ordem social, mais justa, eq�itativa e includente. Com freq��ncia, todavia, se constata em muitos deles um forte div�rcio entre as convic��es de f� crist� que professam e a coloca��o em pr�tica dos respectivos valores evang�licos nos campos que gerem. O disc�pulo se compromete com coer�ncia de vida e de a��o na transforma��o dos sistemas pol�ticos, econ�micos, trabalhistas, culturais e sociais que mant�m na mis�ria espiritual e material milh�es de pessoas em nosso continente.

Outras urg�ncias requerem tamb�m a presen�a e a a��o de disc�pulos de Jesus em nosso Continente: a defesa da vida humana, desde sua concep��o at� sua morte natural; o fortalecimento da fam�lia diante das leis que a amea�am ou destroem; a den�ncia das campanhas anti-natalistas, das pol�ticas totalit�rias de governos que produzem o progressivo enfraquecimento da dignidade, da liberdade e da identidade humana; a participa��o em uma atividade pol�tica solid�ria para buscar a justi�a, a reconcilia��o, o perd�o e a paz nas comunidades e nos povos; a promo��o do direito � liberdade de consci�ncia e � liberdade religiosa, sem falsos �laicismos�; a defesa do direito ao trabalho; a distribui��o eq�itativa dos bens, levando em conta sua fun��o social; a responsabilidade pelo meio ambiente; a educa��o que prepare as gera��es futuras da sociedade e da Igreja.

Em meio � crise de valores que hoje se v�, da ruptura por causa da sedu��o de modelos enganosos e fugazes e da frustra��o por causa da incapacidade de alcan�ar o bem-estar e a felicidade, por meio de sua vida e de sua palavra o disc�pulo deve chamar a aten��o para a esperan�a que Jesus Cristo oferece. Em meio �s tentativas selvagens do mercado que pretende transformar todas as pessoas em sujeitos consumidores, os disc�pulos de Jesus Cristo s�o chamados a viver e a propor outro caminho: o da dignidade humana e da liberdade, da participa��o, da solidariedade e da austeridade de vida, da gratuidade e do servi�o aos outros, com amor obediente e oblativo, aprendido no cont�nuo seguimento de Jesus, seu Mestre. Por isso diz a ora��o eucar�stica VI-D do Missal Romano: �Vossa Igreja seja testemunha viva da verdade e da liberdade, da justi�a e da paz, para que toda a humanidade se abra � esperan�a de um mundo novo�.

Existe hoje em nossa cultura uma resist�ncia muito grande a olhar de frente o mist�rio da Cruz na vida pr�pria e na alheia. A tend�ncia � fugir e ignorar tudo o que � sofrimento, dor e morte; a camufl�-lo, a escond�-lo, por medo de olhar o fundo da realidade inexor�vel e pungente. Diante dessa realidade, o disc�pulo de Jesus � chamado a propor, por meio do testemunho de sua pr�pria vida, o valor de tomar a cruz e seguir o Mestre, que passou esse caminho primeiro, em nosso favor. Desse modo, ele evidencia diante dos olhos de seus contempor�neos que n�o h� vida verdadeira que n�o passe pela paix�o. �Se o gr�o de trigo que cai na terra n�o morrer, permanecer� infecundo; mas, se morrer, produzir� muito fruto� (Jo 12,24; cf. Mc 8,34s).

Enche nosso cora��o de gratid�o ao Senhor a fidelidade de irm�s e irm�os nossos da Am�rica Latina e do Caribe que fizeram do s�culo XX um s�culo de m�rtires. Alguns poucos nomes foram reconhecidos publicamente. Muitos outros s�o conhecidos apenas pelo Senhor. Tamb�m eles entregaram tudo, at� o supremo dom de sua exist�ncia por amor a Jesus.

Outro campo priorit�rio para o disc�pulo de Jesus � a aproxima��o e a busca de unidade entre todos os que cremos em Cristo. Precisamos aprender a viver em um continente com m�ltiplas confiss�es crist�s, movimentos religiosos e seitas, e com uma descren�a que progressivamente aumenta. O trabalho ecum�nico se ver� extraordinariamente fortalecido com a leitura orante da Palavra de Deus, que nos ajudar� a tornar realidade a ora��o de Jesus: �Que todos sejam um (...) para que o mundo creia que tu me enviaste� (Jo 17,21), e com a colabora��o em a��es comuns, que expressem tudo o que nos une como fermento crist�o no meio do mundo.

Na Igreja que peregrina na Am�rica Latina e no Caribe, onde vive quase a metade dos cat�licos do mundo, cada um � chamado a ser mission�rio com sua ora��o e suas iniciativas, tamb�m para manifestar ao Senhor sua disponibilidade para ser enviado, e para sentir-se respons�vel de apoiar os mission�rios e a Igreja em nossos pa�ses, de modo que a Igreja envie de nossos pa�ses muitos mission�rios �ad gentes�, que levem a Boa Nova de Jesus Cristo a outros povos e continentes.

Receber o chamado de Deus para ser disc�pulos e mission�rios de Cristo implica grandes tarefas. S�o tarefas que t�m as dimens�es do poder, da bondade e da sabedoria de Deus. O que recebemos de gra�a, devemos d�-lo de gra�a (cf. Mt 10,8). Por isso, com consci�ncia, queremos escutar, compreender e responder vigorosamente � voz de Deus que nos chama, por meio das circunst�ncias pr�prias de nosso tempo, a nos tornarmos respons�veis pela Nova Evangeliza��o, com o ardor interior que caracterizou os santos.

FONTE: DOCUMENTO DE PARTICIPA��O V CELAM

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