DISC�PULOS PARA A MISS�O
Jesus deu in�cio a sua miss�o com as palavras do profeta: �Ele me
ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remiss�o
aos presos e aos cegos a recupera��o da vista, para restituir a
liberdade aos oprimidos e para proclamar um Ano de Gra�a do Senhor� (Lc
4,18-19). Depois, na �ltima Ceia, Jesus convida seus disc�pulos a
continuar sua miss�o como realiza��o da vontade do Pai: �Quem recebe
Aquele que eu enviar, a mim recebe, e quem me recebe, recebe aquele
que me enviou� (Jo 13,20). Depois da Ressurrei��o, ao torn�-los
participantes de sua Vida nova, reitera-lhes a miss�o, e lhes entrega
Aquele que a tornar� poss�vel e fecunda: �Como o Pai me enviou, tamb�m
eu vos envio (...) Recebei o Esp�rito Santo� (Jo 20,21-22).
Em
outro momento, Jesus expressa definitivamente o car�ter mission�rio de
cada disc�pulo: �Ide e fazei que todos os povos se tornem disc�pulos,
batizando-os para consagr�-los ao Pai, ao Filho e ao Esp�rito Santo e
ensinando-os a p�r em pr�tica tudo quanto vos ordenei. E eis que eu
estou convosco todos os dias, at� o fim dos tempos!� (Mt 28,19-20).
Lemos no Conc�lio: �todos os fi�is, como membros de Cristo vivo... t�m
o dever de colaborar para a expans�o e dilata��o de seu Corpo, para
lev�-lo o quanto antes � plenitude� (Ef 4,13)� (AG 36).
A
sauda��o inicial de Paulo � Igreja de Deus em Corinto (cf. 1Cor 1,2-9)
nos apresenta muita profundidade e beleza sobre nosso fato de ser
disc�pulos consagrados por Cristo Jesus. Por serem configurados com
Jesus no batismo e feitos membros da Igreja, nasce no disc�pulo o
sentido de perten�a, pelo qual ele assume a edifica��o e a miss�o da
Igreja na fam�lia e no mundo, sem esquecer os que est�o afastados, os
indiferentes, os incr�dulos e at� os malfeitores com seus nomes
pr�prios, pelos quais n�s todos somos respons�veis, para que a gra�a
de Cristo n�o seja est�ril.
No
sacramento da confirma��o, o disc�pulo, a exemplo de seu Mestre, �
ungido e enviado para ser instrumento de comunh�o, a servi�o da
unidade com Deus de todos os seres humanos, para ser mission�rios,
anunciando a Boa Nova de Jesus Cristo, e para colaborar com ele (cf.
1Cor 3,9), que � o �Primog�nito de toda a Cria��o� (Cl 1,15), na
constru��o de um mundo mais justo e solid�rio, por meio do qual
vislumbremos a plenitude das promessas de Deus no Reino dos C�us, que
esperamos um dia possuir.
A
experi�ncia de proximidade e de convers�o que vive o disc�pulo de
Jesus Cristo ao encontrar-se com ele na comunh�o da Igreja, prepara-o
para dar testemunho diante daqueles que foram batizados mas n�o t�m a
alegre experi�ncia da vida em Cristo, da riqueza da f�, da esperan�a e
da caridade crist�s. Tamb�m o impele a sair ao encontro daqueles que
t�m sede de Deus e n�o conhecem seu rosto, tanto em nossos pa�ses como
nas regi�es distantes da terra. Eles o buscam, sem saber distinguir
entre inten��es meramente humanas de aproximar-se dele e a iniciativa
que Deus tomou, quando ele pr�prio, Criador e nosso Pai, se aproximou
do homem, revelou-lhe seu rosto e seus caminhos, e lhe ensinou a viver
reconciliado com ele e com os irm�os. Na plenitude dos tempos ele
realizou sua promessa, enviando seu pr�prio Filho para que ele fosse
nosso irm�o e salvador, constituindo-nos como seu Povo. Nele nos
encontramos com Deus e com n�s mesmos, e descobrimos o sentido e o lar
definitivo de nossa vida. A experi�ncia da vida nova em Cristo faz com
que nos doam profundamente a orfandade e a solid�o daqueles que n�o o
conhecem. N�o queremos poupar esfor�os para levar a Boa Nova a todos
os que est�o distantes de Cristo, tamb�m nos confins da terra, at�
onde n�o chegou a Boa Nova do Emanuel, nos pa�ses de cristandade
antiga e de f� d�bil. Nos�sa voca��o � essencialmente mission�ria.
Encontrar-se com Jesus e ser mission�rio dele prepara o disc�pulo para
se aproximar dos diversos grupos culturais que requerem uma nova
proximidade e aten��o pastoral. Eles s�o os grupos ind�genas,
afro-descendentes e imigrantes, que exigem ser mais bem acolhidos e
estimados na rica pluralidade de seus valores e express�es culturais;
como tamb�m na busca de uma incultura��o maior da liturgia. Da mesma
forma, a pastoral urbana, e particularmente das megal�poles, deve
estar atenta para encontrar novos modelos de evangeliza��o, que levem
em conta esses lugares de grande densidade populacional, em muitos
casos de aglomera��o e de graves desenraizamentos familiares e
culturais.
Jesus Cristo chamou todos os seus disc�pulos para ser pobres de
esp�rito, para abrir seu cora��o e sua vida aos dons de Deus, para ser
agradecidos, para n�o p�r sua confian�a em si pr�prios, mas
inteiramente no Senhor. Dessa forma, movidos pelo Esp�rito, chegaram a
ser felizes cidad�os do Reino dos C�us (cf. Mt 5,3). Eles eram
israelitas de muito diversa condi��o. Havia entre eles pobres e ricos,
homens cultos e iletrados, homens e mulheres, s�os e enfermos. Mas
todos foram chamados para peregrinar pelos caminhos das
bem-aventuran�as, para ser pobres de esp�rito, para p�r-se nas m�os do
Pai, tendo os sentimentos de Cristo, seu Filho e nosso Senhor. Na
forma��o dos mission�rios de Jesus Cristo � uma tarefa irrenunci�vel
da Igreja formar disc�pulos que compartilhem o abaixamento de Jesus,
que n�o exigiu ser tratado conforme sua condi��o divina, mas optou por
assumir a condi��o de servo (cf. Fl 2,5-8). Somente com esse esp�rito
de profunda pobreza, pronto para confiar na for�a de Deus e n�o em sua
pr�pria (cf. 2Cor 12,9s), e disposto a assumir a cruz e os encargos
que Deus lhe confiar, o disc�pulo pode ser mission�rio.
Os
primeiros disc�pulos contemplaram seu Mestre quando ele se apresentou,
ao iniciar sua miss�o, como aquele que vinha �trazer a Boa Nova aos
pobres� (Lc 4,18). N�o s� eles, por�m, mas todos os disc�pulos �
tamb�m n�s � foram chamados a permanecer no amor de Cristo; de modo
especial, em seu amor misericordioso e preferencial pelos mais pobres
e necessitados, destinat�rios privilegiados da evangeliza��o�.
Esta � uma prioridade irrenunci�vel para o disc�pulo de
Jesus. Ela deve ser sinal de sua identidade e de sua credibilidade;
mais ainda, ela � condi��o necess�ria para receber a heran�a do Reino
(cf. Mt 25,31-46). �Por isso, imitar a santidade de Deus... n�o � mais
que prolongar seu amor na hist�ria, especialmente em rela��o aos
pobres, enfermos e indigentes (cf. Lc 10,25ss)�.
� necess�rio que o cora��o compassivo e a caridade
imaginativa do disc�pulo tornem suas as alegrias e as esperan�as, mas
tamb�m as imensas tristezas e ang�stias de milh�es de homens e
mulheres de nossos povos, atingidos por injusti�as e marginaliza��es
em suas pr�prias sociedades. Particularmente grave � a pobreza e at� a
mis�ria de muitos camponeses, ind�genas, afro-descendentes,
desempregados, mendigos e meninos de rua, anci�os, e muitos outros que
n�o t�m acesso ao m�nimo necess�rio para uma vida digna. �Este � um
�mbito que caracteriza de modo decisivo a vida crist�, o estilo
eclesial e a programa��o pastoral�.
Desse modo, o disc�pulo se acha urgido a viver a
aut�ntica solidariedade, conforme a Doutrina Social da Igreja, sem se
esquecer de compartilhar com os pobres e abandonados a maior riqueza:
a Boa Nova do Emanuel. Os rostos de desumana pobreza comovem e
interpelam.
Especial aten��o merecem os grupos que animam e decidem a dire��o que
tomam nossos pa�ses em mat�rias de educa��o, economia, trabalho, arte,
comunica��es e pol�tica: os assim chamados �construtores da
sociedade�.
Principalmente eles est�o chamados a desprezar
estruturas marcadas pelo pecado e a trabalhar por uma nova ordem
social, mais justa, eq�itativa e includente. Com freq��ncia, todavia,
se constata em muitos deles um forte div�rcio entre as convic��es de
f� crist� que professam e a coloca��o em pr�tica dos respectivos
valores evang�licos nos campos que gerem. O disc�pulo se compromete
com coer�ncia de vida e de a��o na transforma��o dos sistemas
pol�ticos, econ�micos, trabalhistas, culturais e sociais que mant�m na
mis�ria espiritual e material milh�es de pessoas em nosso continente.
Outras urg�ncias requerem tamb�m a presen�a e a a��o de disc�pulos de
Jesus em nosso Continente: a defesa da vida humana, desde sua
concep��o at� sua morte natural; o fortalecimento da fam�lia diante
das leis que a amea�am ou destroem; a den�ncia das campanhas
anti-natalistas, das pol�ticas totalit�rias de governos que produzem o
progressivo enfraquecimento da dignidade, da liberdade e da identidade
humana; a participa��o em uma atividade pol�tica solid�ria para buscar
a justi�a, a reconcilia��o, o perd�o e a paz nas comunidades e nos
povos; a promo��o do direito � liberdade de consci�ncia e � liberdade
religiosa, sem falsos �laicismos�; a defesa do direito ao trabalho; a
distribui��o eq�itativa dos bens, levando em conta sua fun��o social;
a responsabilidade pelo meio ambiente; a educa��o que prepare as
gera��es futuras da sociedade e da Igreja.
Em
meio � crise de valores que hoje se v�, da ruptura por causa da
sedu��o de modelos enganosos e fugazes e da frustra��o por causa da
incapacidade de alcan�ar o bem-estar e a felicidade, por meio de sua
vida e de sua palavra o disc�pulo deve chamar a aten��o para a
esperan�a que Jesus Cristo oferece. Em meio �s tentativas selvagens do
mercado que pretende transformar todas as pessoas em sujeitos
consumidores, os disc�pulos de Jesus Cristo s�o chamados a viver e a
propor outro caminho: o da dignidade humana
e da liberdade, da participa��o,
da solidariedade e da austeridade de vida, da gratuidade
e do servi�o aos outros, com amor obediente e oblativo, aprendido no
cont�nuo seguimento de Jesus, seu Mestre. Por isso diz a ora��o
eucar�stica VI-D do Missal Romano: �Vossa Igreja seja testemunha viva
da verdade e da liberdade, da justi�a e da paz, para que toda a
humanidade se abra � esperan�a de um mundo novo�.
Existe hoje em nossa cultura uma resist�ncia muito grande a olhar de
frente o mist�rio da Cruz na vida pr�pria e na alheia. A tend�ncia �
fugir e ignorar tudo o que � sofrimento, dor e morte; a camufl�-lo, a
escond�-lo, por medo de olhar o fundo da realidade inexor�vel e
pungente. Diante dessa realidade, o disc�pulo de Jesus � chamado a
propor, por meio do testemunho de sua pr�pria vida, o valor de tomar a
cruz e seguir o Mestre, que passou esse caminho primeiro, em nosso
favor.
Desse modo, ele evidencia diante dos olhos de seus
contempor�neos que n�o h� vida verdadeira que n�o passe pela paix�o.
�Se o gr�o de trigo que cai na terra n�o morrer, permanecer�
infecundo; mas, se morrer, produzir� muito fruto� (Jo 12,24; cf. Mc
8,34s).
Enche nosso cora��o de gratid�o ao Senhor a fidelidade de irm�s e
irm�os nossos da Am�rica Latina e do Caribe que fizeram do s�culo XX
um s�culo de m�rtires. Alguns poucos nomes foram reconhecidos
publicamente. Muitos outros s�o conhecidos apenas pelo Senhor. Tamb�m
eles entregaram tudo, at� o supremo dom de sua exist�ncia por amor a
Jesus.
Outro campo priorit�rio para o disc�pulo de Jesus � a aproxima��o e a
busca de unidade entre todos os que cremos em Cristo. Precisamos
aprender a viver em um continente com m�ltiplas confiss�es crist�s,
movimentos religiosos e seitas, e com uma descren�a que
progressivamente aumenta. O trabalho ecum�nico se ver�
extraordinariamente fortalecido com a leitura orante da Palavra de
Deus, que nos ajudar� a tornar realidade a ora��o de Jesus: �Que todos
sejam um (...) para que o mundo creia que tu me enviaste� (Jo 17,21),
e com a colabora��o em a��es comuns, que expressem tudo o que nos une
como fermento crist�o no meio do mundo.
Na
Igreja que peregrina na Am�rica Latina e no Caribe, onde vive quase a
metade dos cat�licos do mundo, cada um � chamado a ser mission�rio com
sua ora��o e suas iniciativas, tamb�m para manifestar ao Senhor sua
disponibilidade para ser enviado, e para sentir-se respons�vel de
apoiar os mission�rios e a Igreja em nossos pa�ses, de modo que a
Igreja envie de nossos pa�ses muitos mission�rios �ad gentes�, que
levem a Boa Nova de Jesus Cristo a outros povos e continentes.
Receber o chamado de Deus para ser disc�pulos e mission�rios de Cristo
implica grandes tarefas. S�o tarefas que t�m as dimens�es do poder, da
bondade e da sabedoria de Deus. O que recebemos de gra�a, devemos
d�-lo de gra�a (cf. Mt 10,8). Por isso, com consci�ncia, queremos
escutar, compreender e responder vigorosamente � voz de Deus que nos
chama, por meio das circunst�ncias pr�prias de nosso tempo, a nos
tornarmos respons�veis pela Nova Evangeliza��o, com o ardor interior
que caracterizou os santos.
FONTE:
DOCUMENTO DE PARTICIPA��O V CELAM
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