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2005 – QUESTÕES SOCIAIS. ALGO A COMEMORAR?

            Inicialmente, seria conveniente que nos colocássemos em acordo sobre o que se pode entender por “questões sociais”. Desde o aparecimento da Revolução Industrial (1750-1850) e o surgimento de um novo segmento social, o operariado (antes havia agricultores e artesãos), parece que se configura, se afirma e se agrava uma situação que passou a ser conhecida como “questão social”. Na época, a questão referia-se, especificamente, aos operários. Tanto é que a primeira encíclica papal, propriamente dita “social” é a Rerum Novarum, tratando sobre a condição dos operários.

            E hoje, quais seriam os segmentos sociais, vítimas da chamada “questão social”?.

            Sem dúvida, a questão ampliou-se significativamente. Há um número maior de pessoas, vítimas da pobreza, da miséria, da exclusão social. Vejamos:

1.      Camponeses que querem trabalhar na terra. O número deles, que não têm acesso, e, parece que nunca terão, é cada vez maior, embora as promessas e os pronunciamentos do governo digam que a eles o paraíso já chegou. E, quando têm acesso a terra, não há recursos nem infra-estrutura suficiente e adequada para que haja condições razoáveis de trabalho. E, ainda, quando produzem algo, não há garantia de mercado para seus produtos. As conseqüências já nos são conhecidas:  refugiam-se, porque expulsos de sua terra, nas periferias das cidades, inchando os cinturões de pobreza, miséria, degradação humana.

2.      Condições de saúde, higiene, transporte. Este é outro campo em que a “questão social” toma feições próprias. Os noticiários mostraram durante o ano inteiro a precariedade da saúde pública. Sendo pobre e doente, está condenado à morte sem nenhuma condição de defesa. A execução nos corredores de hospitais é sumária. Higiene é outro campo em que as pessoas mais pobres são agredidas aberta e, em alguns casos, sofisticadamente. Agressões de ordem sonora em seus campos de trabalho; poluição do ar; poluição das águas; esgotos a céu aberto e cheiros de todos os matizes. Quem é pobre obriga-se a usar meios de transporte público. O que, em princípio, é ótimo. Menos carros circulando significa menos poluição do ar e sonora. Mas, se nós nos obrigamos a viajar de ônibus por estradas mantidas pelo poder público, experimentamos clara e abertamente que o governo deixa a desejar e muito. Principalmente, se as estradas passam por lugares aonde moram pobres e indígenas. Só porque pobre e índio não têm dinheiro, parece que lhes é proibido viajar bem, mesmo que em ônibus particulares e em ótimo estado e bom atendimento.

3.      Acesso à educação de qualidade. É proclamado sempre que as condições de educação melhoraram “neste país”, como gosta de dizer o atual presidente do Brasil. Mas ele se esquece dos longos tempos de greve dos professores, formadores de outros professores, que acabam, milagrosamente, conseguindo sempre “fechar” o período do ano letivo, conforme determina a lei. Os alunos são sobrecarregados de trabalhos e horas extras e aqueles que seriam os bons professores do futuro, frustram o futuro das crianças de hoje.

4.      Idosos em situação calamitosa. De certa forma, fez-se um esforço para resolver o problema dos menores abandonados. E graças ao esforço de entidades e pessoas, membros da sociedade civil, que se organizam, conseguiram-se excelentes resultados. Mas, esqueceu-se o outro extremo e vemos hoje a situação de idosos abandonados, que ninguém quer adotar. Quando se trata de adotar crianças abandonadas, o problema resolve-se com relativa facilidade. Mas, adotar idosos? Que discrepância! Adotar um velho, ora, direis! E, mais uma vez, não há política pública adequada e suficiente para condições de vida digna nos últimos dias de uma vida miserável de muitos idosos...

5.      Política da arrecadação. Se devêssemos dar um nome ao que hoje se faz no país, em questão de política econômico-financeira, certamente, deveremos dizer: estamos em um país preocupado com números e cifras. O grito constante é arrecadar! Mas arrecadar para quê? Para fazer o quê? Acumular dinheiro, ter balança superavitária? Com dólares não se faz sopa!

 Chegando ao final de 2005, não há o que comemorar no que se refere a questões sociais. E, apenas para instigar reflexão: e a festa das CPIs? Quem ganhou o quê? Quem perdeu já sabemos: a grande perdedora e iludida, mais uma vez, foi a população, especialmente, a mais pobre.

Vai ser muito difícil sorrir e poder dizer: “Feliz Natal e Feliz Ano Novo!”, ao final de 2005. Comemorar? O quê? Quem está feliz? Parece que apenas e tão somente os que “escaparam” das malhas de alguma (das tantas!) CPIs.

Pe Nestor Adolfo Eckert

 

 

© 2006-2007 - Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus
PORTAL DEHON BRASIL

Todos os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores.


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