beatificação
 

Declaração da Comissão Teológica SCJ - Roma, junho 2005
(sobre o cancelamento temporário da beatificação de Pe Dehon)
 

            Ultimamente vários jornais de ampla difusão na França e também fora,  publicaram artigos a respeito de Padre Leão DEHON, fundador da Congregação dos padres do Sagrado Coração, concernentes às dificuldades levantadas em torno de sua beatificação, que foi anunciada.

            Essas dificuldades se baseiam em passagens anti-judaicas que se encontram em alguns dos seus escritos (cf. 3ª Conferência Romana, em “A Renovação Social Cristã”, e no “Catecismo Social” – N.do T.).

            A leitura desses artigos nos convida a dar alguns esclarecimentos que nos parecem necessários.

             Quando se encaminhou o processo da beatificação de Padre DEHON, sua Congregação apresentou toda a sua obra, em edição completa e que sempre esteve ao alcance de todos. Notadamente seus escritos de caráter social, donde são extraídas as passagens questionadas.

             Todos estes escritos foram submetidos ao exame no decorrer do processo: sem qualquer restrição e subtração da parte da Congregação de Padre Dehon. Eles foram cuidadosamente examinados pelo censor nomeado pela Congregação para as Causas dos Santos, um teólogo perito na questão social. Eles foram avaliados positivamente como obra de um apóstolo particularmente atento às questões da sociedade de seu tempo.

             Conforme nosso conhecimento, não foi emitida nenhuma reserva sobre o fundo de suas posições.

             Doutro lado, agora e para o futuro, a Congregação dehoniana se entrega ao prudente julgamento da Igreja.

              O caráter anti-judaico das passagens incriminadas é incontestável. Contudo, a verdade obriga a reconhecer que estas passagens desenvolvem apenas um aspecto, relativamente restrito, na imensa obra social de Padre Dehon. Elas datam de um determinado período do empenho social de seu autor, e conforme o parecer de muitos historiadores, no clima ambiental elas são apenas uma voz entre muitas outras, especialmente entre as dos católicos sociais.

             Temos de recordar, sobretudo, que elas são inseparáveis da análise social e política que as motiva: o compromisso de promover efetivamente o advento da justiça social no contexto da sociedade daquele tempo, com a preocupação de denunciar as causas do mal social, de modo particular a especulação, a usura excessiva...

             É isto que levava Padre Dehon, servindo-se muito facilmente, sem dúvida, e de maneira não crítica da informação difundida nessa época, em denunciar a influência judaica em postos-chaves, particularmente no campo financeiro. Isto foi para ele apenas um dos elementos duma análise muito mais completa. E nisso, aliás, ele não é nem original nem particularmente agressivo, e ele não manifesta nenhum ódio pessoal. Ele não deixa de fazer o elogio do povo judeu, povo providencial na história da salvação.

             Foi esta moderação que, no tempo de Padre Dehon e também depois, foi  constantemente acentuada. O caráter anti-judaico, jamais ignorado, menos ainda ocultado, não foi considerado por  ninguém como uma característica da personalidade de Padre Dehon, reconhecido por todos como um homem respeitoso e pacífico. Esse caráter em nada influenciou ou limitou a Congregação de Padre Dehon no serviço de sua missão.

             Estes esclarecimentos não têm a pretensão de escusar nem de justificar. Os textos questionados são lamentáveis, insuportáveis para nós hoje. Contudo é preciso saber situá-los em seu contexto. Seria objetivamente injusto reduzir seu autor a esse aspecto lamentável de sua obra. E  seria um anacronismo julgá-los conforme a sensibilidade de nosso tempo.

             Se é verdade que o anti-judaismo não encontrou na história da Congregação de Padre Dehon toda a atenção desejável, é também verdade que a história religiosa, em geral, não desenvolveu tal sensibilidade a não ser numa época em que o processo de beatificação já entrara na sua fase decisiva.

 

 
 

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