beatificação
 


Sermão nos funerais de P. Dehon

D. Henri Binet, Bispo de Soissons
19 de agosto de 1925

 

Meus caros amigos,

Uma grande página da história religiosa acabou de ser virada. A caneta caiu pela fraqueza das mãos que escreveram durante sessenta anos, mas os anjos a apanharam e a colocaram no livro da vida. A um de seus maus ilustres filhos do século XIX a Diocese de Soissons, da qual eu também sou filho, oferece, através de meu ministério, minhas lágrimas e dores, meu grande sentido de perda, mesclado com gratidão e respeito, o tributo de orações que ele fez por merecer por tantos motivos.

No estilo dos verdadeiros sacerdotes, em vez de se instalar num castelo de marfim de sua superioridade intelectual, ele atirou-se em seu ministério, especialmente em favor da classe trabalhadora. Precursor de Leão XIII, precedendo seu tempo, ele proclamou a quatro ventos: Ide ao povo! Por 20 anos houve alguma iniciativa religiosa em São Quintino que não contasse com o apoio desta grande alma, Padre Dehon?

Os jovens acorriam a ele cheios de entusiasmo; padres devotos e dignos uniram decisivamente seus ideais ao dele.  O São João era uma colméia esfuziante de energia na qual o mais puro mel foi produzido. Com que veneração, emoção e piedoso afeto os ex-alunos referem-se a Padre Dehon. Com que dor souberam de sua morte e com que angústia rodearam seu esquife. Ele deve ter sido grande, um homem de coração grande, tanto amado!

Os grandes trabalhos de Deus nunca acontecem sem adversidades. Padre Dehon não trilhou uma estrada de triunfos. Seu monte das Bem-aventuranças esteve ao lado do monte Calvário. Ele, porém, tinha feito seu voto de vítima. Palmilhando um caminho de pedras e espinhos ele encontrou o Coração de Jesus e entregou-se completamente a ele, juntamente com um bom grupo de seus amigos.

Muitos padres da Diocese de Soissons devem o nascimento, o desenvolvimento e a realização de sua vocação sacerdotal a este grande e santo padre, cujo coração era tão generoso, nunca recuou diante das dificuldades, obstáculos e desilusões e para quem a palavra ‘impossível’ não existia. A exemplo de São João Batista, ele não nutria inveja daqueles que o superaram em crescimento espiritual desde que estivessem no caminho de Cristo e a seu serviço. Por isso a Diocese de Soissons e seu Bispo lhe devem eterna gratidão.

Padre Dehon sabia que estava morrendo e não se perturbou. Pouco antes de dar o último suspiro ele disse a um de seus amigos que me contou: “Jesus é tão bom, ele logo me receberá no paraíso”. Nós recitaremos as preces finais da sagrada liturgia de forma que a vontade desta grande alma sacerdotal, sempre cheia de confiança, seja atendida. E a todos vós, que credes em Cristo eu digo: “Sejais amigos do Coração de Jesus como era Padre Dehon e, com ele, vós superareis este momento em paz e no regaço do Senhor”. Amém.

 
 

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