beatificação
 

Homilia de Padre Dehon em sua primeira missa

 Dia 19 de julho de 1869 P. Dehon celebra em La Capelle sua primeira missa. Ele tinha sido ordenado em Roma sete meses antes, a 19 de dezembro de 1868, na Basílica de São João de Latrão, ocasião em que a presença de seus pais e o retorno de seu pai à prática religiosa, muito contribuíam para a grande alegria daqueles dias, “os melhores de minha vida” (NHV VI, 78).

Para estas primícias sacerdotais em La Capelle “meus bons pais prepararam para aquele 19 de julho a festa que se faz a todo neo-sacerdote que vem celebrar junto a seus familiares. Acabei tendo uma certa queda pelo dia 19: era o dia de minha ordenação, de minha primeira missa, de São José, de São Vicente de Paulo. Foi o dia em que mamãe morreu. Escolhi aquele dia em função das práticas mensais das confrarias. A festa foi bela e comovente. Cantei a missa e as vésperas e falei duas vezes, de manhã sobre o Santo Sacrifício e de tarde sobre a Virgem Maria. As emoções de um dia assim são indizíveis. Minha família e meus conterrâneos estavam tão emocionado quanto eu. Todo mundo chorou e um dia assim acarretará, creio, um grande crescimento na fé que contribuirá para a salvação de muitos” (NHV VI, 140-141).

É este sermão sobre o Sacrifício da missa que reproduzimos aqui. O P. Dehon dele fala muito, com comentários vastos em NHV VI, 142-149. A bem da verdade não há nada de muito original neste sermão, nem na oratória, nem no conteúdo. “Eu nunca fui orador, nem o sou ... mas  as circunstâncias falavam por si mesmas” (NHV VI, 142).

Num estilo muito convencional este sermão nos proporciona um encontro com o próprio orador: seu apego ao ambiente onde ele nasceu e foi criado, a emoção ainda tão viva por seu sacerdócio e, sobretudo, as convicções que hão de caracterizar sua espiritualidade.

Discretamente ele lembra sua paróquia, sua pátria, sua infância, seu batismo e primeira comunhão, sua família e seus conterrâneos, que junto com ele, isto ele diz duas vezes, se reúnem para oferecer com ele e santo sacrifício.

“Feito este exórdio, fiz um resumo dogmático dos ensinamentos do Cardeal Franzelin sobre o sacrifício” (NHV VI, 145). De fato, o sermão é uma breve aula de teologia, ao alcance dos ouvintes e fundada na Palavra de Deus. A história da salvação é repassada brevemente: a bem-aventurança inicial e os sacrifícios de louvor, a decadência do pecado e os sacrifícios de expiação, seguido do clássico confronto entre justiça e misericórdia de Deus. No centro de tudo, o sacrifício do Filho, feito um de nós, Servidor em sua santa humanidade. Depois, para tornar este sacrifício quotidiano, num culto perpétuo, a obra do Coração de Jesus: a Eucaristia, sacrifício e sacramento do amor, recebido da tradição da Igreja apostólica. Não falta uma referência à sua recente ordenação em Roma, uma lembrança que certamente tocou seus pais, tão felizes por poder participar naquele dia de graças.

Na conclusão, um recurso a que ele haverá de recorrer sempre, ele faz falar Jesus Cristo para exortar os ouvintes à santidade, à solidariedade, na piedade, e para invocara bênção de Deus sobre a família, seus educadores, seus amigos e conterrâneos.

“Aqueles eram os verdadeiros sentimentos de meu coração” (NVH VI, 149). Podemos acreditar sem duvidar. Esta emoção viva daqueles dias carregava o peso de uma saúde abalada pela fadiga dos estudos, “as emoções da minha ordenação e das primeiras missas” (NHV VI, 136) e o cansaço do serviço de estenografia durante o Concílio... a tal ponto que o povo de La Capelle, ao assistir suas primeiras missas, dizia: ‘este pobre padre não haverá de dizer muitas’. Entrementes, a Santíssima Virgem Maria fazia sua obra...” (NHV VI, 139.

André Perroux, scj

 Sobre o Sacrifício

Existem santuários onde os cristãos vão rezar e oferecer o sacrifício da santa Missa. Há lugares de peregrinação nos quais a livre vontade de Deus e a intercessão dos santos derramam graças abundantes.

Há ainda santuários venerados em Roma e a tumba do Príncipe dos Apóstolos onde os cristãos do mundo inteiro vão buscar  a seiva vivificante, a fé que remonta aos tempos apostólicos, e espírito de piedade e de caridade.

Existem ainda os lugares santos, consagrados pela vida de Nosso Senhor, tão chocantes pela sua situação atual de tristeza e pela maldição que sobre eles pesa pois a nossa salvação exigiu que o Salvador ali derramasse seu sangue.

Existe, porém, um outro altar, mais santo que todos estes, e desconhecido dos peregrinos, e que não é menos caro a cada um de nós, é o altar de sua terra, da paróquia onde se nasceu. Gostamos de rezar ali, o dever nos chama e muitas alegrias e lágrimas nos esperam. O dever nos chama porque ali cometemos muitas faltas em nossa infância e é ali, aos pés do altar, que convém repará-las oferecendo a Deus uma vítima de valor infinito. O dever nos chama para lá porque é lá que nós recebemos as maiores graças, a fé e os primeiros sinais de amor que Nosso Senhor nos acena na primeira comunhão, na qual ele se manifesta com a ternura de uma mãe. Das pessoas recebemos também muitos benefícios e nós os agradecemos invocando sobre eles a bênção de Deus.

Muitas alegrias nos espertam ali, semelhantes a esta deste dia, no qual a vossa presença numerosa provoca em mim  uma emoção da qual sois testemunhas, alegria cuja lembrança não se apagará do meu coração  e que estarão sempre comigo junto ao altar; as alegrias da união com nossos irmãos na oração, num amor puro a Deus, na vontade de fazer o bem e na esperança de sermos coroados juntos na morada dos bem-aventurados.

Lágrimas também nos esperam no altar de nossa terra, a nós ministros do Senhor, porque nós recebemos com o Espírito Santo algo do amor  divino pelas almas. Gostaríamos que este união que faz nossa alegria fosse unânime, porém, neste aparente concerto há vozes discordantes e no rebanho do divino pastor há ovelhas desgarradas. Nós nos reunimos aqui, meus irmãos, aos pés deste altar, para obter de Deus a graça de fazer cessar as lágrimas, para confirmar nossas alegrias, para cumprir nosso dever de expiação, oferecendo juntos este santo Sacrifício.  Deus atende somente as preces humildes e fervorosas e os sacrifícios generosos e, em preparação a este santo sacrifício, vamos meditar agora sobre sua grandeza e sua eficácia.

1. O sacrifício! Quanto era belo antes da queda do homem! Grande, nobre, imortal, iluminado pela ciência divina, o homem reinava sobre a criação. Em nome das criaturas e junto com todas elas ele oferecia a Deus um  harmonioso concerto de louvores. O perfume que o vento trazia do jardim das delícias, o brilho das flores sob o sol radiante e os cantos que ali ressoavam não se igualavam à harmonia, à pureza e à suavidade d alma do primeiro homem.

Como ser inteligente e livre, o homem reconhecia o poder soberano de Deus. Em sua alma e em seu corpo, ele devia expressar de modo sensível esta homenagem para com seu Criador. Nascido como ser social, ele devia a Deus um culto externo e social. Este culto podia constituir-se um canto u uma prece ou a oferenda de algum objeto, cuja consumação simbolizava o poder de Deus e sua total soberania.

Tal era a humanidade desejada por Deus, que deveria, após um período de provação, ser confirmada neste estado de graça e ser admitida Na visão beatífica e na felicidade eterna.

Mas o homem não soube perseverar. Deus o tinha criado livre e o homem abusou desta liberdade. O dom mais sublime que Deus podia ter dado à sua criatura, que colocou o homem acima de toda a criatura visível e que confere a seus atos algo da independência divina. O homem foi condenado a sofrer e a morrer e seu culto e seu sacrifício não continham mais alegria e amor. Ele deixou de reconhecer a piedade, a confiança, deixou de dar a expiação, a submissão à justiça divina e a aceitar a miséria da raça humana.

Nesta situação, um sacrifício que consistisse na destruição de algo útil ao homem dava a entender que ele próprio merecia a morte e assim, rendia homenagem a Deus. Neste período da história da humanidade o sacrifício é algo triste mas ainda bom. Vós encontrareis na história o homem, em todas as partes da terra, sendo fiel às suas tradições e orgulhoso de sua origem manifestando através de seu culto sua decadência e pedindo a Deus, por um sacrifício de expiação, seu resgate desta decadência.

 II.Eu entendo os pensadores orgulhosos que pretendem julgar a Deus. Nós temos revisto, dizem eles, a história da humanidade e não vimos senão a efêmera grandeza do homem e sua caída , prevista por Deus, que já leva  séculos e ainda perdura. Como conciliar esta triste situação do homem com a bondade de Deus? “A misericórdia de Deus não se abala com vossas críticas” diria eu. A  justiça de Deus é severa e infinita, mas sua misericórdia é suave e igualmente infinita. A misericórdia e a justiça se abraçaram como diz o salmo: “justiça e paz se abraçarão (sl 85,11). Quando a justiça condenou o homem a ganhar a vida com o suor de seu rosto, a misericórdia acrescentou a esta sentença a promessa de um redentor (cf Gn 3, 15). Sim, a justiça de Deus é severa e, mesmo salvando os culpados ainda assim está a serviço da justiça.

O profeta Isaías (62) anuncia à cidade de Sião seu Salvador: “Ecce Salvator tuus venit” (Is 62, 11) mas ele o vê coberto de sangue. Por que então, diz ele, vossas vestimentas estão manchadas de púrpura? Quare ergo rubrum est indumentum tuum (62, 2). Por que vossa roupa está igual aos homens que pisam a uva no lagar? Et vestimenta tua sicut calcantium in torcolari ( 63, 2)? Eis que eu esmaguei a meus pés meus inimigos em minha ira, diz o Salvador, calcavi eos in furore meo (ibid) e o sangue deles  respingou em mim e tingiu minhas vestes, et aspersus est sanguis eorum super vestimenta mea et omnia indumenta mea inquinavi (ibid.).

Senhor, quem são estes inimigos, onde estão aqueles que tendes triturado? Ah! Novo Davi, aquele que bastou para abater o inimigo que se apresentava tão forte, este gigante éreis vós mesmo, Senhor! Ó misericórdia divina! Aquele que tomou sobre si nossos pecados, sois vós mesmo, Senhor, vossa santa humanidade. Ele foi ferido por nossas iniqüidades, diz o profeta, vulneratus est propter iniquitates nostras (Is 53, 5). Ele foi lacerado por nossos crimes, attritus est propter scelera nostra (ibid.). Ó amor divino!  Eis o único sacrifício que poderia satisfazer vossa infinita justiça porque era necessária uma vítima de valor infinito. Eis o sacrifício pelo qual vosso amor nos resgatou. Ah! Meus irmãos, nós admiramos a misericórdia de Deus pelo homem antes de sua queda e mais ainda ela se manifesta após a queda e somos tentados a repetir Santo Agostinho: ó culpa feliz que nos proporcionou tal Salvador! Ó dignidade do homem que encontrou tal lugar no amor de Deus!

 III.Não vos parece, meus irmãos, que, após tão magno sacrifício, a justiça de Deus deveria ainda receber alguma satisfação? Não vos parece que sua misericórdia deveria estar fatigada? Não, meus irmãos, os merecimentos da vítima eram infinitos mas Deus somente os aceita sob a condição de que nós conformemos nosso coração ao de Jesus Cristo, nosso chefe, e que nós nos unamos a seu sacrifício através de um sacrifício freqüente. Nossa natureza requeria também um culto público, um sacrifício de adoração e de expiação.

A misericórdia de Deus não tinha medido seus dons. O Verbo de Deus veio habitar entre nós (cf Jô 1, 14) e entregou sua vida, sua vida humana pela nossa salvação (cf. Ef 5,2). Sua santa humanidade haveria de alegrar-se por seu triunfo eterno, e seus apóstolos, nossos pais na fé, iriam nos transmitir sua doutrina, suas virtudes e seu amor. Seu coração reservava ainda mais ternura. Ele desejava habitar entre nós, como tinha convivido com os discípulos. Ele não queria que oferecêssemos a seu Pai outra vítima senão ele. Em sua infinita sabedoria, através de seu infinito poder, ele cria, ele inventa este sacrifício, este sacramento do amor.

Foi como se fosse seu testamento, a última instituição de sua vida mortal.  Seu coração tinha ansiado por este momento e o tinha ardentemente desejado. Eu o desejei, diria ele aos apóstolos, eu desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco, desiderio desideravi (Lc 22, 5)... e ele tomou o pão,  o abençoou e disse.. e acrescentou: “Fazei isto em memória de mim”, hoc facite in meam commemorationem (Lc 22, 19). Ele haveria de dar a seus apóstolos o poder de transformar pão e vinho em seu corpo e em seu sangue e oferecer esta vítima divina pela salvação dos homens. Ele lhes daria a missão de transmitir este poder a seus sucessores. Assim, após o nascimento da Igreja, os bispos detêm a plenitude do sacerdócio consagrando os padres da nova lei, a lei do amor. Por este mesmo poder, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, há pouco tempo, o prelado que é o vigário do sucessor de Pedro, me disse diante das imagens de Pedro e de Paulo: “Receba o poder de consagrar o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Eis, meus irmãos, o poder sobrenatural que me foi dado exercer junto convosco, eis a vítima que posso oferecer em vosso favor.

À vista de nossas faltas, de nossa tibieza, de nossas misérias, dizei a vosso Pai o que ele dizia sobre a cruz: Pai, perdoai-lhes porque eles não sabem o que fazem (Lc 23, 34). Falai a nossos corações. Sei o que direis: “Irmãos, sede grandes, virtuosos e santos; eu os vejo justos e generosos para com vossos irmãos Eu os vejo gratos e piedosos para com Deus, dignos e puros para convosco mesmos”. Falai, Senhor, e que cada um de nós saia melhor desta solenidade. Falai a vosso Pai, e pedi-lhe que abençoe seu indigno ministro, que abençoe os seus, seus veneráveis mestres e pastores, seus conterrâneos e amigos, sua família. Pedi-lhe que abençoe esta pequena assembléia e que nos reúna a todos na felicidade dos eleitos. Amém! Assim seja

 

 
 

© 2006-2007 - Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus
PORTAL DEHON BRASIL

Todos os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores.


        O que é isso?