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REFLEXÕES DEHONIANAS
Pe Francisco Sehnem scj

 

 

POR QUE DIMINUIU O TRABALHO SOCIAL DO PADRE DEHON?

(No início do século passado)

 

Esta pergunta já andou fundindo a cuca de muitos dehonianos, principalmente daqueles que sempre tentam julgar as pessoas fora do seu contexto histórico. Não pretendemos dar uma resposta definitiva, mas trazer à memória alguns fatos que podem ajudar-nos a compreender melhor porque o trabalho social do Padre Dehon diminuiu no início do século passado e porque seus seguidores não continuaram este trabalho.

 

Entre as prováveis causas, nós poderíamos lembrar as seguintes:

·        Aos 18 dias de janeiro de 1901, Leão XIII dirige à Democracia Cristã a sua Encíclica ‘Graves de Communi’. Nela, o Papa limita o campo da Democracia Cristã à atividade sócio-religiosa, voltada para a melhoria das condições morais e materiais do povo. Os ‘Abbés Démocratiques’ pensavam também num partido político e na conquista do poder. A decepção foi muito grande.

·        A Democracia Cristã começa a debilitar-se devido, especialmente, a uma profunda divisão entre os católicos franceses.

·        Com a morte de Leão XIII (20.07.1903), o apostolado social mais ativo do Padre Dehon está concluído. Pio X abandona a política de Leão XIII. Ao novo Papa não interessa a re-aproximação com a Terceira República, mas a defesa dos interesses religiosos da Igreja. No entanto, o relacionamento do Padre Dehon com o Papa sempre foi muito bom. Nada parece indicar que Pio X tenha dificultado o trabalho social do Padre Dehon. Apenas não havia um incentivo tão claro como no tempo de Leão XIII. (Lembramos que foi Pio X que aprovou definitivamente a Congregação).

·        Devido às tensões entre os católicos, Leão Harmel também se vê obrigado a deixar seu trabalho social com os seminaristas e nas suas fábricas, para assegurar a paz na Igreja e na fábrica. Em 1903, devido à perseguição de Combes termina a Obra de Val-des-Bois.

·        Outros fatos a serem lembrados: A perseguição religiosa na França, com a lei sobre as Associações Religiosas de 1901; a ascensão de Combes ao poder (1902-1905); a lei da separação da Igreja do Estado, com a conseqüente denúncia da Concordata (09.12.1905) e os prolongados conflitos que causou. De 1901 a 1906, o Padre Dehon teve que lutar contra o Governo para salvar a propriedades da Congregação. Padre Dehon é obrigado a mudar-se para Bruxelas. (Em 28.03.1903, os dehonianos são expulsos da França).

·        Em sua Revista ‘Le Règne’ (1902), o Padre Dehon critica fortemente os católicos que, por sua desobediência ao Papa, põem tudo a perder. Critica igualmente a ‘Semana Teológica’ de Kameriyk, do Con. Delassus e Carlos Maignen, integralistas, que afirmam que os Democratas Cristãos são hereges. Devido às dificuldades, em novembro de 1903, o Padre Dehon decide abandonar a publicação da Revista ‘Le Règne’.

·        As perseguições religiosas na França levam o Cardeal de Malines a autorizar a mudança da Casa Generalícia de São Quintino para Bruxelas. Começa, assim, o exílio forçado do Padre Dehon e de muitos padres da Congregação.

·        Até 1906, o Padre Dehon está empenhado na difícil e conturbada aprovação da Congregação, por parte da Santa Sé: era questão de vida e de morte. A aprovação veio só aos 11.06.1906 (NQT, XX, 50).

·        O Motu Próprio de Pio X, de 18.12.1903, contendo a ‘ordenação fundamental da ação popular cristã’, além de renovar a proibição de os eclesiásticos se engajarem na política, obrigava-os a pedir ao respectivo bispo a aprovação para todas as publicações de qualquer tipo. Eram prescrições muito severas e, além disso, grande parte dos bispos franceses era contrária ao apostolado social. Pio X determinava, ainda: “Os escritores democrata-cristãos, no patrocinar a causa dos proletários e pobres, abstenham-se de usar um linguajar que induza o povo à aversão às classes superiores da sociedade. Não falem de ressarcimento, nem de justiça, quando se trate de mera caridade. Os escritores democrata-cristãos lembrem-se que Jesus Cristo quis enlaçar todos os homens com o vínculo do amor recíproco, que é a perfeição da justiça e traz consigo a obrigação de empenhar-se no bem recíproco” (nº 10).

·        Neste meio tempo, a Congregação estendia-se sempre mais e exigia maior empenho e tempo da parte do Fundador. Ajunte-se a isto a idade do Padre Dehon. Em1906, tinha 63 anos e uma saúde meio frágil. Dos 60 aos 70 anos fez longas viagens: à América Latina (31.08.1906 – 11.01.1907); à Finlândia e Rússia (20.07.1907 – 14.08.1907) e, enfim, o giro pelo mundo (10.08.1910 – 02.03.1911).

·        Com 70 anos, o Padre Dehon fez uma síntese de sua vida e, a 14 de março de 1912, escreve aos seus religiosos uma longa carta (Souvenirs), em que fala também do apostolado social: “Eu quis contribuir para a elevação das classes populares, com a vinda da justiça e da caridade cristã”. Dehon relembra as obras de São Quintino, suas publicações e conferências sociais, suas longas viagens....

·        No exposto, acima, podemos já descobrir algumas razões porque este trabalho não continuou, ao menos não na intensidade desejada. Talvez possamos lembrar ainda que o Padre Dehon não impôs a sua opinião, nem exigiu que todos fizessem este trabalho. Além disso, faltava formação específica, no campo social, aos que vieram depois. Houve também uma grande preocupação com as missões, com a formação e uma ‘certa’ dispersão de obras. E, especificamente, na pátria do Fundador, FOI GRANDE A RESISTÊNCIA DO EPISCOPADO.

Tudo isso, talvez, nos ajude a compreender porque o Padre Dehon diminuiu o seu trabalho social e porque a Congregação não assumiu, com maior empenho, esse trabalho tão caro ao Fundador.

Corupá, 18 de agosto de 2005.  

P. Francisco Sehnem, scj.


 

 

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