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POR QUE DIMINUIU O
TRABALHO SOCIAL DO PADRE DEHON?
(No início do século
passado)
Esta pergunta já andou
fundindo a cuca de muitos dehonianos, principalmente
daqueles que sempre tentam julgar as pessoas fora do
seu contexto histórico. Não pretendemos dar uma
resposta definitiva, mas trazer à memória alguns
fatos que podem ajudar-nos a compreender melhor
porque o trabalho social do Padre Dehon diminuiu no
início do século passado e porque seus seguidores
não continuaram este trabalho.
Entre as prováveis
causas, nós poderíamos lembrar as seguintes:
·
Aos 18
dias de janeiro de 1901, Leão XIII dirige à
Democracia Cristã a sua Encíclica ‘Graves de Communi’.
Nela, o Papa limita o campo da Democracia Cristã à
atividade sócio-religiosa, voltada para a melhoria
das condições morais e materiais do povo. Os ‘Abbés
Démocratiques’ pensavam também num partido político
e na conquista do poder. A decepção foi muito
grande.
·
A
Democracia Cristã começa a debilitar-se devido,
especialmente, a uma profunda divisão entre os
católicos franceses.
·
Com a
morte de Leão XIII (20.07.1903), o apostolado social
mais ativo do Padre Dehon está concluído. Pio X
abandona a política de Leão XIII. Ao novo Papa não
interessa a re-aproximação com a Terceira República,
mas a defesa dos interesses religiosos da Igreja. No
entanto, o relacionamento do Padre Dehon com o Papa
sempre foi muito bom. Nada parece indicar que Pio X
tenha dificultado o trabalho social do Padre Dehon.
Apenas não havia um incentivo tão claro como no
tempo de Leão XIII. (Lembramos que foi Pio X que
aprovou definitivamente a Congregação).
·
Devido
às tensões entre os católicos, Leão Harmel também se
vê obrigado a deixar seu trabalho social com os
seminaristas e nas suas fábricas, para assegurar a
paz na Igreja e na fábrica. Em 1903, devido à
perseguição de Combes termina a Obra de Val-des-Bois.
·
Outros
fatos a serem lembrados: A perseguição religiosa na
França, com a lei sobre as Associações Religiosas de
1901; a ascensão de Combes ao poder (1902-1905); a
lei da separação da Igreja do Estado, com a
conseqüente denúncia da Concordata (09.12.1905) e os
prolongados conflitos que causou. De 1901 a 1906, o
Padre Dehon teve que lutar contra o Governo para
salvar a propriedades da Congregação. Padre Dehon é
obrigado a mudar-se para Bruxelas. (Em 28.03.1903,
os dehonianos são expulsos da França).
·
Em sua
Revista ‘Le Règne’ (1902), o Padre Dehon critica
fortemente os católicos que, por sua desobediência
ao Papa, põem tudo a perder. Critica igualmente a
‘Semana Teológica’ de Kameriyk, do Con. Delassus e
Carlos Maignen, integralistas, que afirmam que os
Democratas Cristãos são hereges. Devido às
dificuldades, em novembro de 1903, o Padre Dehon
decide abandonar a publicação da Revista ‘Le Règne’.
·
As
perseguições religiosas na França levam o Cardeal de
Malines a autorizar a mudança da Casa Generalícia de
São Quintino para Bruxelas. Começa, assim, o exílio
forçado do Padre Dehon e de muitos padres da
Congregação.
·
Até
1906, o Padre Dehon está empenhado na difícil e
conturbada aprovação da Congregação, por parte da
Santa Sé: era questão de vida e de morte. A
aprovação veio só aos 11.06.1906 (NQT, XX, 50).
·
O Motu
Próprio de Pio X, de 18.12.1903, contendo a
‘ordenação fundamental da ação popular cristã’, além
de renovar a proibição de os eclesiásticos se
engajarem na política, obrigava-os a pedir ao
respectivo bispo a aprovação para todas as
publicações de qualquer tipo. Eram prescrições muito
severas e, além disso, grande parte dos bispos
franceses era contrária ao apostolado social. Pio X
determinava, ainda: “Os escritores
democrata-cristãos, no patrocinar a causa dos
proletários e pobres, abstenham-se de usar um
linguajar que induza o povo à aversão às classes
superiores da sociedade. Não falem de ressarcimento,
nem de justiça, quando se trate de mera caridade. Os
escritores democrata-cristãos lembrem-se que Jesus
Cristo quis enlaçar todos os homens com o vínculo do
amor recíproco, que é a perfeição da justiça e traz
consigo a obrigação de empenhar-se no bem recíproco”
(nº 10).
·
Neste
meio tempo, a Congregação estendia-se sempre mais e
exigia maior empenho e tempo da parte do Fundador.
Ajunte-se a isto a idade do Padre Dehon. Em1906,
tinha 63 anos e uma saúde meio frágil. Dos 60 aos 70
anos fez longas viagens: à América Latina
(31.08.1906 – 11.01.1907); à Finlândia e Rússia
(20.07.1907 – 14.08.1907) e, enfim, o giro pelo
mundo (10.08.1910 – 02.03.1911).
·
Com 70
anos, o Padre Dehon fez uma síntese de sua vida e, a
14 de março de 1912, escreve aos seus religiosos uma
longa carta (Souvenirs), em que fala também do
apostolado social: “Eu quis contribuir para a
elevação das classes populares, com a vinda da
justiça e da caridade cristã”. Dehon relembra as
obras de São Quintino, suas publicações e
conferências sociais, suas longas viagens....
·
No
exposto, acima, podemos já descobrir algumas razões
porque este trabalho não continuou, ao menos não na
intensidade desejada. Talvez possamos lembrar ainda
que o Padre Dehon não impôs a sua opinião, nem
exigiu que todos fizessem este trabalho. Além disso,
faltava formação específica, no campo social, aos
que vieram depois. Houve também uma grande
preocupação com as missões, com a formação e uma
‘certa’ dispersão de obras. E, especificamente, na
pátria do Fundador, FOI GRANDE A RESISTÊNCIA DO
EPISCOPADO.
Tudo isso, talvez, nos
ajude a compreender porque o Padre Dehon diminuiu o
seu trabalho social e porque a Congregação não
assumiu, com maior empenho, esse trabalho tão caro
ao Fundador.
Corupá, 18 de agosto
de 2005.
P. Francisco Sehnem,
scj.
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