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Uma Congrega��o � procura de seu princ�pio de identidade
 Yves Ledure (EF)

I. Quando se fala da beatifica��o de Le�o Dehon voltamos � segunda metade do s�culo XIX. Foi em per�odo de grandes transforma��es na Fran�a e em toda a Europa. Com a industrializa��o nasceu a quest�o social e oper�ria que foi radicalizando as rela��es sociais e exasperou os nacionalismos. A partir do s�culo XIX, ap�s a revolu��o francesa a Igreja teve que enfrentar uma crise maior, a do fim da cristandade. A ruptura provocada pela modernidade trouxe consigo a seculariza��o que atingiu a Igreja profundamente de modo a abalar as rela��es entre a sociedade e a religi�o. Sob este aspecto, a vida e a obra de Padre Dehon podem esclarecer alguns pontos e trazer algumas respostas.

Falta-nos uma verdadeira biografia de Padre Dehon para poder estabelecer seu papel naquela situa��o. � certo que alguns estudos interessantes foram realizados e que dispomos de arquivos importantes, inclusive no Vaticano. Falta-nos ainda entrar na problem�tica hist�rica que faz desmistificar a hagiografia, em geral idealizada. Assim, acentuamos a obedi�ncia exemplar de Padre Dehon no momento da supress�o da congrega��o em 1883, porque, segundo a Santa S�, �estava fundada em pretensas revela��es�, ou seja, as revela��es de Irm� Maria In�cia, das Irm�s Servas do Cora��o de Jesus.

Pelo resto da vida Dehon rejeita o julgamento da Santa S� que ele chama de �erro de fato� (Carta ao assessor do Santo Of�cio, 17.07.1892). Ele continuou a inspirar-se nas mensagens de irm� Maria In�cia. Em 1921 ele escreve: �Nossas regras, nossas ora��es, nosso diret�rio n�o se originam na terra. As ora��es e o diret�rio s�o, em grande parte, fruto das vis�es de ora��o de Irm� Maria In�cia. Estes tr�s escritos s�o como nosso evangelho, do qual n�o podemos nos distanciar� (NQT IV, 1921,10).

Se, por um lado, ele obedece a Roma, por outro, persiste com tenacidade em seu objetivo inicial. Pode-se perguntar o que � mais forte nele: sua obedi�ncia ou sua ferocidade? O dado hist�rico � importante neste caso. � como colocar o dedo na fraqueza doutrinal da funda��o dehoniana, a saber, nas revela��es provadas. Este � o calcanhar de Aquiles da congrega��o. Esta quest�o, a meu ver, condiciona seu pr�prio futuro.

 

II. Padre Dehon viveu numa �poca de transforma��es e de rupturas pol�ticas e culturais que desestabilizaram a Igreja enraizada num terreno s�cio-cultural destru�do pela revolu��o francesa. Com o advento da democracia, coube ao povo soberano e n�o mais � Igreja determinar os fundamentos da sociedade. Um novo panorama pol�tico e social se delineia sem o papel regulador da religi�o. Esta situa��o complexa determina a l�gica do compromisso de padre Dehon. Deste ponto de vista podemos ver nele um homem de transi��o. Ele vive a tens�o, mesmo a contradi��o em seu projeto, uma tens�o entre o que � conhecido e que deve ser superado para assegurar o futuro.

No semin�rio franc�s de Roma padre Dehon se inicia na espiritualidade cristol�gica da grande tradi��o da escola francesa de espiritualidade do s�culo XVII. Mas, sua vida religiosa se inspira na espiritualidade do Sagrado Cora��o que, no s�culo XIX, assume certa autonomia como uma esp�cie de s�ntese do cristianismo. � na escola de Margarida Maria que padre Dehon alimenta sua espiritualidade. Sabe-se que a mensagem de Margarida Maria, a partir de 1689, comporta uma conota��o pol�tica direcionada a Lu�s XIV, convidando-o a consagrar o reino da Fran�a ao Sagrado Cora��o. A devo��o ao Sagrado Cora��o torna-se um instrumento de renova��o crist� e de consolida��o da cristandade sob os ausp�cios da monarquia. Ap�s a tormenta da revolu��o francesa esta problem�tica torna-se crucial no catolicismo franc�s. O movimento vitimal reparador que Padre Dehon herda a partir de 1877 das Irm�s Servas e no qual ele toma a decis�o de fundar a congrega��o, ignora esta problem�tica.

As apari��es da Virgem Maria em La Salette (1846) confirmam esta perspectiva e acentuam a dimens�o da nostalgia da cristandade e a necessidade de restaura��o. A derrota francesa de 1870 na guerra contra a Pr�ssia � vista como um castigo divino. A derrota inspira o movimento por uma Fran�a arrependida e penitente e resulta na constru��o da bas�lica ao Sagrado Cora��o em Paris.

Dehon evolui em meio a este universo no qual se constr�i um catolicismo intransigente. Conseq��ncia disto � o lan�amento da revista �O Reino do Cora��o de Jesus nas almas e na sociedade (1889), numa data historicamente simb�lica pois celebra o centen�rio da Revolu��o e o segundo centen�rio das apari��es a Margarida Maria. No primeiro n�mero Dehon define os objetivos da revista: �O culto ao Cora��o de Jesus n�o � para n�s uma simples devo��o, mas uma verdadeira renova��o de toda a vida crist� e do evento da reden��o� (OSC I,9). Este objetivo espiritual � acompanhado por uma vontade de restaura��o da antiga ordem, �� preciso restabelecer a cristandade, a grande cristandade dos s�culos da f�, isto �, o concerto das grandes na��es sob a dire��o soberana do Pont�fice� (OSC I,10).

Esta dupla perspectiva que evoca a problem�tica de Margarida Maria Alacoque dirige o pensamento e o compromisso daquele que n�s chamamos de 1� Dehon. Ela se alinha perfeitamente com a din�mica intransigente do s�culo XIX. Padre Dehon, que n�o � um te�rico, apresenta uma postura mais pastoral. Ele desejaria ver toda a sociedade impregnada pelo evangelho, acreditando que a espiritualidade do Sagrado Cora��o, tal como era vivida na �poca, seria o instrumento mais adequado para tal miss�o. �O cristianismo puramente privado e pessoal � um cristianismo falso e gravemente parcial. N�s devemos ser crist�os sociais que fazem Cristo reinar na vida social tanto quanto na vida particular� (OSC I, 390).

Pode-se dizer que este objetivo ambicioso determina a l�gica de todo o empenho de padre Dehon. Resta a quest�o da viabilidade. Durante o per�odo de vig�rio paroquial em S�o Quintino, ele adota a posi��o cl�ssica que era empenhar-se por restaurar a ordem crist� anterior � revolu��o. Sua ades�o, em 1873, � obra dos c�rculos oper�rios cat�licos, de car�ter mon�rquico e paternalista, fundado por A. de Mun e R. de la Tour de Pin, serve como ilustra��o. Realista como era, Dehon constata que o abismo entre a Igreja e o povo vai aumentando. Depois de 1890 ele muda de estrat�gia. O contato com L�on Harmel, devoto do Sagrado Cora��o e patr�o reformador, talvez tenha contribu�do. P. Dehon percebe que certas mudan�as como o advento da democracia e da justi�a social s�o irrevers�veis. Aceit�-las � condi��o necess�ria para qualquer atividade mission�ria.  A publica��o da Rerum Novarum, em 1891, consolidar� estas convic��es.

 

III. Ap�s esta enc�clica padre Dehon passa a ter uma nova vis�o da sociedade e, para ele, a Igreja dever� mudar de posi��o. N�o � mais o rei mas o povo que organiza a estrutura social. Num artigo de 1895, abordando o reinado social do Sagrado Cora��o, ele escreve: �O rei, hoje, n�o � mais Lu�s XIV, � o povo, s�o os eleitores� (OSC V, I, 510).

Padre Dehon torna-se ent�o um partid�rio convicto da causa da democracia. Ele se faz porta-voz desta causa na Igreja, que ainda � dominada pelo monarquismo, pelo menos em sua hierarquia. A seu ver, a democracia � uma nova oportunidade oferecida � Igreja e o meio de promover a reconcilia��o entre o povo distanciado e um cristianismo que passa a interessar-se por ele. Em suas c�lebres confer�ncias romanas de 1887-1888, padre Dehon exorta a Igreja a aceitar a democracia. Porque, diz ele �o futuro da democracia est� assegurado. Ela dominar� conosco ou contra n�s. Se quisermos que Cristo reine � necess�rio que ningu�m nos afaste do amor ao povo� (OSC III, 214).

A evolu��o de padre Dehon neste aponto � espetacular. Ele abre a porta de entrada ao mundo moderno nascente.  Ele retoma a frase de Ozanour, de 1848: �Passemos aos b�rbaros�, e abandona qualquer nostalgia de reconquista e se empenha pelo futuro. Isto, na minha opini�o, foi decisivo para dar a seu compromisso um car�ter exemplar para nossa �poca,  estruturada num modo democr�tico que a Igreja aceita a duras penas. Junto com os chamados �padres democratas� Dehon via na democracia crist� n�o um partido pol�tico mas uma a��o popular cat�lica, concretizando assim o apelo de Le�o XII �ir ao  povo� que ele faz seu e o populariza.

O que chama a aten��o � que padre Dehon n�o traduz este avan�o pastoral significativo em termos de reflex�o teol�gica. Neste aspecto, ele permanece na espiritualidade vitimal reparadora do tipo mon�stico em completa desafina��o com a evolu��o da sociedade. Dois esquemas se cruzam aqui sem se harmonizarem um com o outro. A partir de 1890 padre Dehon completa sua express�o com o acr�scimo do termo social: O Reino social do Sagrado Cora��o. Este acr�scimo n�o elimina a perspectiva fundamental que gera um distanciamento, se n�o uma hostilidade, em rela��o � sociedade que surge durante o s�culo XIX.

Um exemplo desta dicotomia encontra-se na teologia de sacerd�cio que Dehon desenvolve. A quest�o � delicada, sem d�vida. A teologia do sacerd�cio deriva de uma vis�o teol�gica e pastoral de uma Igreja que se descompromete. Tendo passado pelo semin�rio, Dehon se preocupa pela forma��o do clero. Ele pensa at� em fundar uma obra que se dedique a tal tarefa. Sua forma��o romana estava moldada no modelo cl�ssico, ou seja, pelo Conc�lio de Trento e pela escola francesa de espiritualidade. Segundo a f�rmula de B�rulle, o padre deve ser um �alter Christus�. Nesta perspectiva, o sacerd�cio � visto principalmente como uma consagra��o que busca suas ra�zes no esquema mon�stico. Transforma-se num estado de vida. Este tipo de vis�o levar� Dehon automaticamente � vida religiosa como meio de qualificar melhor seu sacerd�cio. Nesta linha, ele adota o esquema de Irm� Oliva Ulrich, fundadora das Irm�s Servas do Sagrado Cora��o: uma repara��o sacerdotal feita por sacerdotes. Dehon acredita que este tipo de repara��o, dentro da corrente vitimal, possa proporcionar aos padres uma melhor qualifica��o, uma santidade maior. Em suas Notes Quotidiannes de 1886 ele escreve: �Diversas obras ocupam meu pensamento: ensino, c�rculos oper�rios, jornal, mestrado, miss�es, por�m, a maior delas, a mais fecunda para a Igreja, deve ser a obra sacerdotal, a obra de repara��o ao Sagrado Cora��o e a dedica��o ao clero� (NQT III, 1886, 67).

A partir de 1891, junto com o c�nego Perriot de Langres, ele organiza em Val-de-Bois, perto de Reims, sess�es de inicia��o social para seminaristas, a fim de sensibiliz�-los pelos problemas da sociedade contempor�nea. Isso vale a dizer que ele considerava insuficiente a forma��o cl�ssica conferida nos semin�rios. Os grandes congressos eclesi�sticos de S�o Quintino (1895), Reims (1896) e Bourges (1900) mostram a mesma necessidade: abrir os padres para a sociedade contempor�nea para reunir condi��es de evangelizar. �Temos n�s amado a sociedade contempor�nea, pergunta Dehon em Bourges, para n�o encar�-la com agressividade? (OSC IV, 577). Aos olhos de Dehon, a partir de sua convers�o democr�tica, o padre n�o mais somente aquele que celebra os sacramentos. Ele deve, sobretudo, �intervir na situa��o social atual, n�o apenas por oportunismo, mas por um dever de justi�a e de caridade, para o cumprimento rigoroso de seu minist�rio pastoral� (OSC III, 359).

Em padre Dehon h� uma superposi��o de dois tipos de padre: o padre reparador e o padre social. Isto se deve �s an�lises que ele faz da sociedade modelo. Pessoalmente, ele tentar� ser fiel a esta dupla din�mica, com bastantes dificuldades e incoer�ncias e ser� reprovado por alguns religiosos. Assim se explica que em suas notas di�rias ele se acusa continuamente de suas faltas, de suas infidelidades e falhas. N�o se trata de falsa humildade, elas traduzem suas dificuldades. A impossibilidade de viver ao mesmo tempo os dois modelos de sacerdote, um, enraizado no esquema mon�stico teoc�ntrico, o outro, resultado de uma din�mica social de servi�o.

De qualquer modo, a primeira gera��o de dehonianos n�o seguiu o Fundador na trilha do empenho social. Durante os anos 1890 surgir� at� uma surda oposi��o a Dehon na sua inser��o social.  Alguns membros pleiteavam at� uma divis�o da congrega��o. O fundador desta corrente, P. Blacal, escreve: �Estamos separados por um abismo� (carta de 06.07.1897). Al�m do que, a primeira gera��o de dehonianos foi formada por um mestre de novi�os que n�o seguiu Dehon em sua mudan�a social. Antes de entrar nos dehonianos, o P. Andr� Pr�vot, junto com Madre Ver�nica, fundadora das Irm�s V�timas de Villeneuve-les-Avignons, pensou em fundar uma congrega��o de padres reparadores. Ele, que foi mestre de novi�os de 1886 a 1909 forma os religiosos numa �tima exclusivamente reparadora vitimal. Isto explica porque os livros b�sicos dos dehonianos, as constitui��es e o diret�rio espiritual, silenciem totalmente a respeito da op��o social do fundador. Para a congrega��o a aquilo que chamo de op��o do 2� Dehon passa para a congrega��o como uma op��o pessoal do fundador e n�o integra a estrutura e as finalidades da congrega��o. Oficialmente, permanecemos presos a uma problem�tica de espiritualidade mon�stica reparadora vitimal, dif�cil de viver dentro do minist�rio sacerdotal, com preocupa��es bem diversas.

 

IV. Encontramo-nos aqui numa situa��o ins�lita mas n�o in�dita que p�e o fundador numa esp�cie de ex�lio interior em rela��o � sua congrega��o. Esta permanece fixa a uma projeto inicial reparador que n�o chega a gerar uma din�mica pastoral para uma sociedade democr�tica secularizada. A maioria dos religiosos sacerdotes adotam uma conduta estritamente sacerdotal que partilham com o clero diocesano. Surge paulatinamente uma esp�cie de div�rcio entre vida religiosa e atividade pastoral, como se fossem realidades heterog�neas. Uma situa��o tal n�o favorece a afirma��o de uma identidade tanto para os religiosos como para a congrega��o enquanto tal.

Esta dicotomia observada junto ao Fundador e no per�odo sucessivo, para o bem ou para o mal, se prolongou existencialmente e repercute ainda hoje na congrega��o. De minha parte, esta � a raz�o essencial porque a congrega��o jamais encontrou seu princ�pio de identidade. Ela permanece atrelada ao projeto reparador inicial, com argumenta��es teol�gicas prec�rias, e uma vontade pastoral mission�ria forte, recebida do Fundador. Ela n�o chegou a, ou n�o quis, integrar a abertura social democr�tica do 2� Dehon que � uma chave para o futuro. Para sair deste impasse ela deve procurar um princ�pio de identidade. Nos per�odos de turbul�ncias culturais, sociais e religiosas como estes que atravessamos a identidade � adquirida menos da perten�a ao Instituto que da espiritualidade evang�lica que inspira.

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P. Yves Ledure (EF) nasceu em Lorraine a 2 de novembro de 1934. Foi provincial da prov�ncia Francesa (1981-1987) decano da Faculdade de Letras do Instituto Cat�lico de Paris e diretor do Centro Aut�nomo do Ensino de Pedagogia de Metz e do Instituto Cat�lico de Paris. Autor de numerosas publica��es, dentre as quais diversas sobre P. Dehon. ([email protected])

 

Nota: Artigo publicado em �Dehoniana�  2007 -  tradu��o de Odilo Leviski
 

 

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