8 de março de 2010

8 de março - A Páscoa legal

No primeiro dia dos ázimos, os discípulos de Jesus aproximaram-se e perguntaram: onde queres que preparemos a páscoa? Jesus disse: Ide à cidade a casa de fulano e dizei-lhe: O mestre diz: o meu tempo está próximo, vou celebrar a páscoa em tua casa com os meus discípulos (Mt 26,17).

Primeiro Prelúdio: A última páscoa do bom Mestre em Jerusalém está cheia de mistérios, ela prepara o duplo sacrifício da Eucaristia e do Calvário.

Segundo Prelúdio: Dai-me, Senhor, compreender melhor os vossos mistérios de amor e de sacrifício.

PRIMEIRO PONTO: Preparação da Ceia. – Nosso Senhor vai celebrar a páscoa anual, mas ela tem desta vez para Ele e para os apóstolos um carácter muito excepcional. A páscoa foi sempre a preparação e a figura dos sacrifícios da Eucaristia e do Calvário; mas desta vez, a realidade vai ser unida às suas figuras. A instituição do sacrifício eucarístico será misturada à própria páscoa; e o sacrifício do calvário começará no Cenáculo com as advertências que Nosso Senhor fará a Pedro e a Judas.
Uma primeira lição deriva para nós da preparação desta páscoa. Nosso Senhor quis um grande cenáculo, ornado com tapeçarias. Isto não era em vista da páscoa tradicional, mas para a instituição da Eucaristia.
Esta encenação exterior tem um duplo sentido espiritual. Nosso Senhor indicava assim que as nossas Igrejas nunca teriam nada de demasiado belo para o culto da Eucaristia; mas também queria significar que as nossas almas deviam estar purificadas e ornamentadas para o receberem.
A comunhão, é a visita de Jesus, a visita do Bem-Amado; é como os esponsais para Ele; é o festim nupcial. É preciso apresentar-se a Ele com a veste nupcial da pureza, com os ricos vestidos de todas as virtudes e sobretudo da caridade.

SEGUNDO PONTO: A páscoa, figura do sacrifício redentor. – A antiga lei tinha tido o seu sangue redentor, o sangue dos cordeiros imolados no Egito para preservar as casas dos Israelitas, quando da passagem do anjo exterminador.
E era esta preservação, figura da redenção do mundo pelo sangue do Cordeiro divino, que era recordada todos os anos por todos os pormenores da cerimónia da Páscoa. Todos os anos Nosso Senhor tinha assim tomado parte na representação da sua morte. Mas este ano, como todos estes ritos deviam comovê-lo e tocar-lhe mesmo no coração. Prepararam o cordeiro para ser imolado, traspassam-no com dois espetos em forma de cruz; grelham-no. Não devem deixar ficar nada. O seu sangue é derramado sobre o pé do altar.
São comidas ervas amargas e uma comida de cor escura, que recordam o Egito e o pecado. Bebe-se um copo de vinho que representa o sangue do cordeiro. Ao beberem esta taça são pronunciadas estas palavras misteriosas: «Eis o sinal da nossa liberdade, e o memorial da saída do Egipto...»
Nosso Senhor via nesta taça a figura do seu sangue. Cinco vezes, durante a refeição simbólica, todos bebiam, uns a seguir aos outros, nesta taça figurativa.
Eram recitados os salmos 143 e 114 que se referem à libertação do Egito.
Comiam apressadamente o cordeiro, e o que restava era queimado.
Toda esta encenação era bem crucificante para Nosso Senhor. Era como a repetição do grande drama do calvário que ia começar nessa mesma noite.
Nosso Senhor está totalmente dele penetrado. Adverte S. Pedro a respeito da sua renegação e Judas da sua traição.
Perante isto, não sentirei crescer no meu coração sentimentos de amor e de reparação pelo Coração de Jesus?

TERCEIRO PONTO: A páscoa, figura da Eucaristia. – A páscoa figurava o sacrifício da Eucaristia bem como o do calvário. Nosso Senhor está igualmente totalmente ocupado com este pensamento. Exprime-o desde o começo da refeição simbólica: «Desejei ardentemente, diz, comer esta páscoa convosco, antes de sofrer (diz isto principalmente da Eucaristia que vai instituir); porque, acrescenta, não comerei mais dela até que ela se cumpra no reino de Deus» (na Igreja), onde a vítima que vai ser em breve imolada, e que sou Eu mesmo, se tornará a páscoa do povo novo, onde o festim eucarístico sucederá à páscoa figurativa e será dela o cumprimento.
Depois a cerimónia desenrola-se: é o pão ázimo, abençoado, partido e distribuído, é o cordeiro que é comido, é a taça de acção de graças.
Recitam os salmos de acção de graças, 117-120-137.
É uma comunhão simbólica, à qual vai misturar-se a instituição da Eucaristia e a comunhão real. Nenhuma hora da sua vida foi para Nosso Senhor mais impressionante, mais carregada de emoções. Institui a Eucaristia, começa a sua Paixão, põe fim às figuras, inaugura os sacrifícios novos. Que há então de surpreendente quando disse: «Desejei comer esta páscoa convosco?». Que há de surpreendente que S. João tenha dito desta hora: «Tendo amado os seus, amou-os sobretudo até ao fim?». Aproxima-se a hora na qual poderá dizer: «Dei tudo, tudo está consumado».

Resolução. – Ó Jesus, amastes-me sem medida e sacrificastes-vos sem medida nestas últimas horas da vossa vida. Que vos darei, Senhor, em troca? Tomarei, eu também, o cálice da reparação e do amor, e testemunhar-vos-ei o meu amor, consagrando-me ao vosso divino Coração em cada uma das minhas acções.
Colóquio com Jesus no Cenáculo.

7 de março de 2010

7 de março - São Tomás de Aquino

No meio da Assembleia abrirá a sua boca e enchê-lo-á com o espírito da sabedoria e da inteligência, e revesti-lo-á de glória. Dar-lhe-á um tesouro de contentamento e de alegria e dará ao seu nome uma herança de honra (Eccl. 15,5).

Primeiro Prelúdio: A Igreja retira estas belas palavras do livro do Eclesiástico no ofício dos doutores. S. Tomás é um daqueles aos quais elas se aplicam melhor.

Segundo Prelúdio: Senhor, dai-me o espírito de pureza de S. Tomás e o seu amor pela ciência sagrada e pela Eucaristia.

PRIMEIRO PONTO: A infância. – Neste capítulo do livro do Eclesiástico que a Igreja cita abundantemente no ofício dos doutores, o Espírito Santo diz-nos que Deus dá a sabedoria e a ciência àqueles que o temem, que o servem e que o amam. Os amigos do mundo podem ter uma ciência relativa, brilhante em alguns pontos, incompleta e misturada com erros, não terão a ciência divina, a ciência sobrenatural, o dom da ciência e da sabedoria.
S. Tomás de Aquino, desde a sua mais tenra idade, mereceu estes belos títulos de alma justa e temente a Deus. Aos cinco anos, a sua piedade encoraja os seus pais a confiarem a sua educação aos beneditinos do Monte Cassino. Como a Santa Virgem, passa toda a sua juventude no templo. Aí é feliz e edificante. A sua regularidade, o seu zelo pelo estudo fazem a admiração dos seus condiscípulos e até dos próprios mestres.
Como S. João Batista, como Jesus, crescia em sabedoria e em graça ao mesmo tempo que crescia em idade.
Parecia feito para a família beneditina, no entanto a vocação divina levou-o para uma ordem mais apostólica. Decidiu-se a entrar na ordem dominicana, à qual devia trazer tanto brilho; mas o demónio parecia suspeitar do seu valor e opôs-lhe cem obstáculos.

SEGUNDO PONTO: A luta. – A família de S. Tomás era contrária à sua vocação. Os seus irmãos vinham ao noviciado de Nápoles atormentá-lo para o levarem a sair. Os seus mestres dirigiram-no para Paris a fim de o subtraírem a esta pressão ímpia; mas os seus irmãos raptaram-no no caminho e encerraram-no num castelo de campo, onde teve de suportar da sua parte novos vexames. Foram mesmo tão grosseiros até ao ponto de enviarem uma mulher para o assediar. Mas ele resistiu a tudo. Expulsou esta infeliz com um tição da chaminé. Fez uma cruz no muro com este tição, rezou e viu em êxtase um anjo que vinha cingir os seus rins e extinguir nos seus sentidos toda a revolta da carne.
Solicitado ainda pelas suas irmãs para se dedicar à vida secular, conquistou-as a elas à piedade, depois escapou-se por uma janela para ir reencontrar o seu convento, e daí foi estudar para Colónia com Alberto o Grande. Uma outra provação o esperava. O seu carácter grave e reflectido, e o seu amor pelo silêncio fizeram crer aos seus condiscípulos que era pouco inteligente. Era objecto das suas zombarias. Comparavam-no mesmo a um boi.
Para saber em que poder basear-se, o seu mestre Alberto o Grande chamou-o e interrogou-o. Reconheceu o seu valor e disse aos outros jovens: os mugidos deste boi far-se-ão um dia sentir em todo o mundo.
Tinha, portanto, provado sucessivamente o seu amor heróico pela pureza, pela humildade, pelo trabalho e pela regra. Devia as suas vitórias à Santíssima Virgem que amava com um amor verdadeiramente filial.
E eu, onde me encontro no cultivo destas belas virtudes? Não tenho a contar mais derrotas do que vitórias? Não negligenciei a devoção filial e terna a Maria que me teria protegido contra os assaltos do demónio e da natureza corrompida?

TERCEIRO PONTO: O doutor e o apóstolo. – Aos vinte e cinco anos ensina teologia em Paris. Os seus sucessos perturbam a sua humildade, mas consagra os seus tempos livres à oração e às leituras piedosas.
É diante de Deus que estuda. Todas as suas ações são santificadas pelas intenções mais puras. Tudo refere a Nosso Senhor.
O belo ofício que escreveu para a festa do Santíssimo Sacramento, mostra simultaneamente a elevação dos seus sentimentos e a ternura do seu coração no culto da Eucaristia.
Prega frequentemente, mas sem pretensão, com muita simplicidade e unção. A sua palavra edifica e impressiona os seus ouvintes.
A sua conversa é sempre grave e piedosa. Não compreende que as pessoas possam ocupar-se com assuntos fúteis. Não escuta conversas que se ocupam com bagatelas.
A devoção ao Sagrado Coração ainda não estava revelada, mas S. Tomás tinha mesmo assim um ardente amor por Nosso Senhor. Testemunhava-o amando a cruz, a Eucaristia e a Santíssima Virgem Maria.
Ganhou o Coração de Jesus e, por um favor extraordinário, Nosso Senhor /261 disse-lho ainda durante a sua vida. Conta-se que um dia em que ele rezava longamente diante do crucifixo, a imagem de Cristo se animou, e Nosso Senhor disse ao seu piedoso adorador: «Tomás, tu falaste bem de mim». Era ao mesmo tempo autorizar os escritos do doutor e louvar a devoção do santo para com o divino Mestre.

Resolução. – Que belos exemplos de amor pela pureza, pela humildade, pela vida interior! Seguindo o vosso exemplo, grande santo, quero amar Nosso Senhor, a sua cruz, a sua Eucaristia, a sua santa Mãe. Estas devoções conduzir-me-ão à do Sagrado Coração, que Nosso Senhor hoje pede de nós.
Colóquio com S. Tomás.

6 de março de 2010

6 de março - Fariseus contra Jesus e pacto de Judas

Os príncipes dos sacerdotes e os escribas procuravam o modo de o entregarem à morte: mas tinham medo do povo. Mas Satanás entrou em Judas, chamado Iscariotes, um dos doze. E foi ter com os príncipes dos sacerdotes e com os escribas, para lho entregar (Lc 22,2).

Primeiro Prelúdio: Que odiosos sentimentos dirigem estes persnonagens: o ódio e a inveja nos grandes, a avareza no traidor.

Segundo Prelúdio: Senhor, desprendei o meu coração destas odiosas paixões e acolhei as minhas reparações.

PRIMEIRO PONTO: Os fariseus. – Há muito tempo que os Príncipes dos sacerdotes e os doutores da lei procuravam o modo como poderiam desfazer-se de Jesus e condená-lo. Vimo-los tentarem lançar-lhe ciladas em várias circunstâncias. Jesus tinha desfeito as suas manhas, que tinha feito transformarem-se em sua confusão. O ódio e a inveja remordiam nos seus corações. Jesus era tão amado pelo povo! A sua eloquência divina enchia o povo de admiração, curava os doentes, a todos testemunhava uma extrema bondade.
Os chefes da sinagoga compreendiam que se não se opusessem a este entusiasmo popular, a autoridade deles e o seu ascendente estavam arruinados. Estavam decididos a se desembaraçarem de Jesus a todo o custo, mas não sabiam como fazer. Juntaram-se, portanto, em casa de Caifás, na sua casa de campo. Todo o Sinédrio estava lá: os Príncipes dos sacerdotes, os chefes das famílias sacerdotais, os doutores da lei e os anciãos.
Quase todos estavam cheios de ódio, alguns, como Nicodemos, hesitavam, mas faltava-lhes energia.
Este mau conselho perturba-me. Também eu não pensei algumas vezes que Jesus era incómodo com a sua moral austera e as suas prescrições opostas aos costumes do mundo? Não fui tímido, como Nicodemos na defesa de Cristo? Passarei de novo todas estas minhas fraquezas no meu espírito e far-lhes-ei uma pública retractação e reparação ao coração de Jesus.

SEGUNDO PONTO: O desígnio providencial. – Estavam lá reunidos no palácio, no átrio da vivenda de Caifás. Satanás inspirava-os. Tomaram o conselho de apanharam Jesus por astúcia, para o entregarem à morte. Não ousavam empregar abertamente a violência, porque tinham medo do povo, que era arrastado por Jesus. Era preciso, portanto, apoderarem-se de Jesus na sombra e julgá-lo imediatamente.
Diziam também: É preciso que esta execução não tenha lugar durante a páscoa, com o medo que não resultasse numa rebelião.
Normalmente as execuções faziam-se nos dias de festas populares, guardavam os condenados até àqueles dias. Era um modo de inspirar um terror salutar à multidão reunida em Jerusalém.
Mas desta vez os fariseus temiam uma sedição da parte dos partidários de Jesus, e a confusão que daí resultasse excitaria os Romanos a se mostrarem ainda mais rigorosos na administração da Judeia.
Queriam retardar a execução dos seus desígnios até depois das festas da Páscoa; mas a Providência tinha decidido de outro modo. Deus queria que o Cordeiro divino fosse imolado nos dias de páscoa, quando era imolado o cordeiro figurativo e era recordada a libertação do Egipto.
Judas veio oferecer a ocasião esperada. Acolheram-na sem pensar no movimento popular. O ódio não conhece prudência.
Jesus queria ser o Cordeiro da verdadeira páscoa, o cordeiro que apaga os pecados do mundo e que liberta do Egipto ou do reino de Satã.
O ódio de um momento prepara todos os horrores da Paixão.
E eu, estou com Jesus ou contra Ele? Não o tenho traído? Não feri cruelmente o seu coração? Não escandalizei tantas almas! Não tomei de um modo tão fraco a defesa do bom Mestre? Tenho horror de todas as minhas faltas passadas.

TERCEIRO PONTO: O traidor. – Satanás tinha tomado posse de Judas, um apóstolo! E foi-se encontrar com os príncipes dos sacerdotes para conspirar a sua traição com eles. Disse-lhes: «Que quereis dar-me, se vo-lo entregar?».
É introduzido no Sinédrio, escutam-no com alegria, uma alegria digna do inferno. Discutem o preço. Oferecem-lhe trinta moedas de prata. Aceita, o pacto é concluído. A moeda de prata valia quatro dracmas antigas, cerca de cinco francos. Trinta moedas, era o preço habitual de um escravo.
Eis até onde Jesus quis descer para nos resgatar.
Judas empenhou a sua palavra, e desde aquele momento procurava a ocasião para lhes entregar Jesus fazendo com que Ele ficasse fora dos encontros populares: spopondit et quaerebat opportunitatem ut traderet eum sine turbis (Lc 22,6). /258
Como é que Judas chegou àquele ponto? Tinha sido pouco a pouco e cedendo, primeiro, a alguns movimentos de avareza.
Oh! Como a inclinação para o pecado é escorregadia! Não estou eu em perigo pela minha tibiez actual de cair bem baixo?
Depois do seu pacto criminoso, Judas e os Fariseus tiveram ainda vários dias para se arrependerem, mas em vão. O endurecimento é o castigo do sacrilégio. Como devo temer chegar até lá! Trato muitas vezes Nosso Senhor com tão pouco respeito nas minhas comunhões impregnadas de tibiez e de rotina! – Nosso Senhor dizia ao bispo de Éfeso: «Decaíste do teu fervor, toma cuidado! Se não fizeres penitência, voltarei, derrubarei o teu candelabro e darei a outro o teu lugar» (Ap 2,5).

Resolução. – Senhor, estou assustado à vista deste pacto infernal. Sem me desencorajar por causa das minhas faltas, humilho-me e faço pública retractação e reparação ao vosso divino Coração desconhecido e traído; quero retomar o meu fervor anterior e aplicar-me a partir de hoje. Ajudai-me.
Colóquio com Jesus traído.

5 de março de 2010

5 de março - Abandono e união aos sofrimentos de Jesus

Entretanto os seus discípulos pediam-lhe dizendo: Mestre, coma. Disse-lhes: Tenho um alimento para comer que vós não conheceis... O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra (Jo 4,31).

Primeiro Prelúdio: Jesus está sempre à disposição de seu Pai, entrega-se a Ele em tudo e por tudo.

Segundo Prelúdio: Senhor, o abandono amoroso e confiante é a disposição de que gostais, fazei com que reine no meu coração, como reinava no vosso.

PRIMEIRO PONTO: No verdadeiro amor abandonamo-nos àquele que amamos. – No amor verdadeiro, a pessoa não se resigna apenas, faz mais: está alegre por se pôr à disposição da pessoa amada, entrega-se a ela em tudo e por tudo; porque a união seria incompleta, não existiria totalmente, se a pessoa não deixasse absorver a sua vontade por aquele que ama. Nosso Senhor não se limitou a resignar-se à vontade de seu Pai, aderiu a esta vontade com alegria, mesmo quando chegou a hora de pegar na cruz e de subir ao Calvário.
No Egipto, em Nazaré, Nosso Senhor não apenas se resignou à vontade de sua Mãe ou à de S. José, quis sempre alegremente o que eles queriam; fez mais, quis o que eles desejavam.
Como estamos ainda longe de o amarmos como Ele quer sê-lo! Deixa aos seus amigos uma vontade, a de estarem unidos a Ele, mas não pode deixar-lhes a vontade de escolher entre tal ou tal forma de união. Ele é que é o mestre.
Não confundamos o amor jubiloso do amor com a resignação simples. Jesus recompensa também a resignação à sua vontade, porque é meritória, mas a amargura da resignação é incompatível com o amor, cuja delicadeza fere. A preocupação de um coração amante não é a recompensa, não pensa nisso; o seu ideal, é unir-se a Jesus, é provocar as expansões do coração de Jesus pelas expansões do seu. Dá-se inteiramente a Jesus, esquece-se, perde-se nele como uma gota de água no oceano.

SEGUNDO PONTO: O abandono amoroso e confiante é esse que agrada a Nosso Senhor. – A meditação afectuosa da sua vida de menino ensinará a que nos coloquemos/254 nas suas mãos com uma confiança de criança! É o fruto que devemos colher das afeições da sua infância. É preciso deixarmos que ele actue, é preciso que nos abandonemos a ele. Resignar-se e fazer alguns sacrifícios não basta; o que ele quer, é que o amemos e que nos abandonemos com confiança ao seu amor.
O abandono amoroso, eis o que lhe agrada, o que faz estremecer o seu coração e lhe dá as mais doces alegrias. Quando uma alma se abandona ao seu amor, não conta mais com ela. Toma-a ao seu cuidado como de si mesmo. Permite que este coração dedicado se funda e se perca no seu. Como Jesus não faz senão um só com o seu Pai, a alma consagrada também não faz senão um só com Ele. É para Ele mais do que um amigo, é de algum modo um outro que Ele mesmo: «Como vós estais em mim, meu Pai, e Eu em vós, dizia Nosso Senhor, que assim estes discípulos consagrados não sejam senão um só como nós: Sicut tu Pater in me et ego in te, ut et ipsi in nobis unum sint (Jo 17,21).

TERCEIRO PONTO: O amor por Jesus transforma em alegrias as amarguras e as mágoas. – É nas meditações dos sofrimentos de Nosso Senhor que havemos de retirar as forças necessárias para seguirmos os exemplos de abandono que Ele deu na sua vida de menino. O desejo de nos unirmos aos seus sofrimentos adoça as penas que podemos encontrar na imolação de nós mesmos. Estas penas, unimo-las à sua imolação do Calvário e são um meio de nos associarmos à sua dolorosa Paixão. Esta união de intenção é-lhe muito agradável. O amor com o qual a fazemos aumenta o seu valor aos seus olhos.
O seu amor é assim um meio de suportar todas as provações pelas quais devemos passar, de aligeirar e mesmo de transformar em alegrias tudo o que sem isto seria mágoa ou amargura.
Somos flagelados com ele, quando lhe oferecemos amorosamente as mortificações da carne e as humilhações do orgulho. Somos coroados de espinhos, quando unimos amorosamente aos seus sofrimentos todas as contrariedades que provamos. Caminhamos com Ele na via dolorosa do Calvário, quando seguimos, unidos a Ele pelo amor, as vias onde lhe apraz fazer-nos passar. Somos pregados à cruz com Ele quando unimos à sua crucifixão as situações penosas ou dolorosas nas quais lhe apraz colocar os seus amigos. Agonizamos com Ele sobre a cruz, quando unimos às suas penas as angústias de uma situação na qual quer que nos encontremos.
Quem quer que ama passa por provações. Estas provações, é preciso sofrê-las com Ele, em união com os sofrimentos da sua Paixão. A união de amor identifica de algum modo os nossos sofrimentos com os de Jesus.
Mas não é necessário para isso que experimentemos dores semelhantes às suas. São-lhe sempre semelhantes quando são generosamente aceites e oferecidas em união com as suas.
Mas esta união pede o recolhimento habitual, a recordação constante das bondades de Nosso Senhor e do seu amor e uma doce intimidade habitual com Ele.
Nosso Senhor fala desta união que lhe é cara quando diz: Aquele que faz (por amor para com o meu Pai e por mim) a vontade do meu Pai celeste (e a minha) esse é meu irmão, e minha irmã e minha mãe.

Resoluções. – Senhor, confio-me, dou-me e abandono-me com confiança e com amor à vossa amorosa Providência, como vos abandonastes ao vosso Pai na vossa infância, em toda a vossa vida e na vossa Paixão. Porque me amais, porque não me haveria de confiar ao vosso Coração: tereis mais cuidado comigo do que o teria uma mãe.
Colóquio com Jesus sofredor.

4 de março de 2010

4 de março - Sobre a alegria no sacrifício

Então Jesus veio encontrar os seus discípulos e disse-lhes: Dormi agora e repousai; chegou a hora e o Filho do homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos, aproxima-se o que me vai entregar (Mt 26,45).

Primeiro Prelúdio: Jesus levanta-se e avança muito generosamente em direcção do traidor, que exemplo de coragem no sacrifício!

Segundo Prelúdio: A vossa doce Providência, ó meu bom Mestre, nunca me pedirá sacrifícios acima das minhas forças, fazei que aceite generosamente os que me impondes.

PRIMEIRO PONTO: Nosso Senhor dirigia-se com alegria para o Calvário para a glória do seu Pai e a salvação das nossas almas. – Nosso Senhor quis passar por um momento pelos temores e pelas perturbações da agonia, para sofrer tudo o que sofremos e para nos ensinar a resignação e o abandono de que a vida está toda semeada. Queria também sofrer em todas as suas faculdades, a fim de expiar as faltas cometidas por todas as potências da nossa alma e do nosso corpo.
Nestas penas extremas, exprime a sua resignação à vontade do seu Pai, mas regressa imediatamente à sua disposição habitual de alegria no sacrifício: Surgite, eamus. Levantai-vos e caminhemos, dizia aos seus apóstolos e ia para a frente do traidor. Ia para a frente do cálice de amargura que tinha desejado beber e para o baptismo de sangue com que tinha pressa de ser baptizado por amor pelo seu Pai e por nós.
O conjunto dos mistérios da sua Paixão, era a nossa salvação, a nossa redenção. Era o prelúdio necessário da Ressurreição, da abertura do seu Coração, do nascimento da Igreja, da descida do Espírito Santo e de todas as graças esperadas e preparadas desde a origem do mundo. Era a vitória sobre o demónio e sobre o pecado.
Tinha muitas vezes exprimido o seu desejo da cruz, era para Ele uma angústia esperar: Baptismo habeo baptizari et quomodo coarctor usque dum perficiatur.
Os profetas tinham anunciado esta espontaneidade do seu sacrifício: ofereceu-se porque quis (Is 53). Assim, quando Pedro e os outros quiserem prender o traidor e os seus cúmplices, Nosso Senhor reprimirá o seu ardor demasiado natural: Não hei-de beber o cálice que meu Pai me deu? (Jo 18,11).

SEGUNDO PONTO: O seu amor por nós tornava-lhe a cruz leve. – S. Paulo dá-nos o amor de Nosso Senhor pela cruz como um exemplo e um encorajamento nas nossas provas: Nosso Senhor pegou na cruz com alegria (proposito sibi gaudio), desprezando as humilhações (Heb 12). Levava a cruz considerando os motivos que podiam autorizá-lo a encontrar nela alegria. Estes motivos eram, com a alegria que daí derivava para o seu Pai, o avanço da obra da nossa redenção. Cada passo que dava no caminho do Calvário, pagava uma parte da nossa dívida e quebrava um anel da nossa cadeia. Como é que não se teria alegrado, se nos amava? Era somente sobre a cruz que devia ter acabado de pagar a nossa dívida. Era lá que devia rasgar e pregar a cédula dos nossos compromissos (Col 2,14).
A cada passo que dava neste caminho, as potências das trevas recuavam. Avançava para a vitória definitiva do Calvário, como não teria estado alegre e triunfante? «Avança com confiança, diz S. Paulo, triunfando em si mesmo, porque despoja os principados e as potências do inferno» (Col 2,15).
Se o amamos, se desejamos avançar o reino do seu Coração, se queremos fazer recuar o demónio, apagar os nossos pecados, enriquecer-nos com graças e contribuir para a salvação das almas, para a libertação dos defuntos que expiam, levemos generosamente a nossa cruz quotidiana. A nossa cruz, é a de Nosso Senhor da qual nos deixou uma pequena parte, para que possamos provar-lhe o nosso amor e participar na sua glória: «Cumpro o que falta à Paixão de Cristo», diz S. Paulo (Col 1,24).
Regozijai-vos, portanto, no Senhor, mesmo no tempo da provação e do sofrimento. Porque estas são as verdadeiras causas de uma verdadeira e santa alegria. Os sacrifícios e os sofrimentos são outros tantos passos que nos conduzem ao nosso fim, que nos tornam semelhantes a Nosso Senhor e que nos aproximam do seu Coração.

TERCEIRO PONTO: A alegria no sacrifício é a característica das almas consagradas ao Sagrado Coração. – As provações são inevitáveis, indispensáveis, fazem avançar o reino do Sagrado Coração e preparam com Ele grandes graças, grandes favores, como não haveriam de trazer alegria? Quanto mais ultrapassamos obstáculos, tanto mais nos aproximamos do fim.
A paciência, a generosidade, o amor pelo sofrimento e pelo sacrifício são as virtudes que devem caracterizar as almas consagradas ao Sagrado Coração.
Perseveremos na oração, no louvor, na acção de graças para com Deus, mas sobretudo na paz de Deus, esta paz que ultrapassa todo o conceito, que é um fruto da cruz, da renúncia a si mesmo, da abnegação e do sacrifício; esta paz que o mundo não pode dar, que não conhece, precisamente porque não quer conhecer nem amar a cruz. Consequentemente, também não conhece a doçura, nem a paz, nem a felicidade que está contida na cruz e que dela brota.
Levando alegremente a cruz, saciaremos a sede de amor generoso e dedicado de Nosso Senhor, responderemos às súplicas prementes que dirigiu a Margarida Maria; seguiremos os traços desta alma privilegiada e dos outros santos mais caros ao Sagrado Coração e apressaremos a efusão des grandes graças que o reino do Sagrado Coração deve trazer à Igreja.

Resolução. – Senhor Jesus, quero aplicar-me a levar doravante a minha cruz com alegria. Quero imitar as disposições do vosso Coração em todas as provações e sofrimentos da vida: a paciência, a generosidade, o amor pelo sofrimento e pelo sacrifício.
Colóquio com Jesus sofredor.

3 de março de 2010

3 de março - Sobre as dores do Coração de Jesus - segunda meditação

Se um inimigo me tivesse amaldiçoado, teria suportado facilmente; mas tu, um amigo, meu condutor e meu companheiro, que partilhavas as minhas refeições de festa: nós vivíamos de acordo na casa de Deus (Sl 54, 13).

Primeiro Prelúdio. As ofensas dos amigos causam muito mais dor do que as dos estranhos.

Segundo Prelúdio. Senhor, se vos devo ajudar a espalhar o reino do vosso Coração, vinde primeiro reinar sem partilha no meu coração.

PRIMEIRO PONTO: As faltas das almas privilegiadas são mais sensíveis ao Coração de Jesus do que as das almas comuns. – Os pecados das pessoas que não conhecem Nosso Senhor ou que o conhecem pouco estão longe de provocar a cólera do seu Pai e a sua como as dos infelizes que abusaram das graças de eleição. No entanto, apesar da ofensa feita ao seu Pai, apesar do desprezo que lhe atinge no Coração, ama estes infelizes, quereria salvá-los. Sim, apesar das torturas que infligem ao seu coração, quereria conduzi-los a si: Nolo mortem peccatoris sed ut magis convertatur et vivat. Não quer a sua morte, mas que se convertam. Por isso é preciso aplacar o seu Pai irritado, é preciso aplacar a sua justiça que está em luta com a misericórdia do Coração de Jesus .
Padres simplesmente correctos, fiéis simplesmente exactos nos seus deveres podem obter para si mesmos as graças necessárias e salvar a sua alma, mas são impotentes para dar a Nosso Senhor a compensação de que o seu coração tem sede para apagar a ingratidão dos outros. O seu olhar detém-se sobre eles com satisfação, mas não encontra nas suas obras a reparação que procura para as ofensas que lhe são mais sensíveis.

SEGUNDO PONTO: Nosso Senhor espera consoladores generosos. – Quereria que ao lado do abismo de amarguras no qual certas ingratidões mergulham o seu Coração, almas generosas formassem um exército de eleição onde o seu Coração encontrasse uma superabundância de amor. Além de que este amor consolaria o seu coração, aí ligaria graças de salvação para os ingratos. Quando alguém se dá a Ele com amor, quando alguém consagra especialmente a vida a amá-lo, torna-se nas suas mãos um instrumento de graças.
Glorifica o seu Pai, aplaca a sua cólera, consola-o proporcionando alegrias ao seu Coração. Trabalha também pela salvação dos seus irmãos, porque se torna um canal por onde se compraz em fazer passar as suas graças. Toda a Igreja aproveita com isso.
Se os maus obstruem o canal por onde devem correr os dons de Nosso Senhor, os que são simplesmente fiéis não podem suprir a isso. Fazem o que é preciso para si mesmos, não recebem a superabundância que seria necessária para suprir aos outros. É por isso que Nosso Senhor pede corações que o amem generosamente e que façam do seu amor o fim mesmo das suas vidas.
Quer estabelecer o reino do seu amor para a salvação do seu povo. Mas para que o seu Coração reine sobre a massa dos fiéis, é preciso primeiro que reine sobre os seus condutores, os padres, as almas consagradas, os educadores, os homens de obras.
Pede um grupo de amigos que o consolem e que, tendo-o colocado nos seus corações, o comuniquem depois aos outros.

TERCEIRO PONTO: Os apóstolos do Sagrado Coração. – A quem se há-de dirigir primeiro, senão aos seus padres e a todas as almas apostólicas? Não é justo que, devorado pela necessidade de ser amado, pressionado pelo desejo de ser consolado de tantas amarguras, se dirija primeiro àqueles aos quais mais deu? Que aqueles dos seus apóstolos cujo coração não está ressequido compreendam enfim o seu apelo, que se dêem conta das dores com que o oprimem muitos dos seus irmãos os quais, na sua sede, lhe dão vinagre: In siti mea potaverunt me aceto.
Que estes corações ainda sensíveis a um sentimento de afeição por Nosso Senhor vão ter com Ele na sua simplicidade, dando-se-lhe inteiramente: In simplicitate cordis mei obtuli universa. Dar-se a Nosso Senhor como Ele se deu ao seu Pai por nós, como a todos se dá no sacramento do altar, tal é a primeira condição a cumprir para entrar na via do amor.
O amor não pode desenvolver-se nos corações egoístas e frios. A generosidade é a condição do amor verdadeiro. Recordemo-nos das palavras de Nosso Senhor a Margarida Maria. Dizia-lhe: «Participa nas amarguras do meu Coração, derrama lágrimas sobre a insensibilidade destes corações que tinha escolhido para os consagrar ao meu amor. Venho ao coração que te dei, para que pelo seu ardor tu repares as injúrias que recebi destes corações tíbios e lassos que me desonram. Esta alma que te dei, oferecê-la-ás a Deus meu Pai, para desviar as penas que estas almas infiéis mereceram... Farás isso pelo meu povo escolhido».
Consideremos como dito a nós mesmos o que Nosso Senhor dizia ainda a Margarida Maria acerca do apostolado do seu amor:
«Quero que me sirvas de instrumento para atrair todos os corações ao meu amor».
Eis o ideal da nossa vida: reparar muito, muito, para que isso baste pela nossa alma e por outras almas que Nosso Senhor quer salvar por nosso meio; amar muito também para que o nosso amor nos dê influência sobre o Coração de Jesus e para que inspire o nosso zelo no apostolado que temos para fazer.

Resolução. – Senhor, a quem vos dirigis? A um pecador cuja indignidade é capaz de impedir o cumprimento dos vossos desígnios! Supri a tudo o que me falta; abrasai o meu coração com os vossos santos ardores. Renuncio a todas as minhas afeições que não estão no amor nem na afeição do vosso Coração.
Colóquio com o Coração ofendido de Jesus.

2 de março de 2010

2 de março - Sobre as dores do Coração de Jesus na sua paixão

Ora um dos ladrões que estavam crucificados blasfemava dizendo: Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós também. Mas o outro, repreendendo-o dizia-lhe: Não temes a Deus, tu que também estás condenado? E nós, é com justiça e para expiar os nossos crimes: mas este não fez nenhum mal (Lc 23,39).

Primeiro Prelúdio. Se a vista dos sofrimentos físicos de Jesus excita uma viva compaixão, que impressão pungente não deve produzir o sentimento das dores do seu Coração!

Segundo Prelúdio. Dai-me, Senhor, uma terna compaixão pelos vossos sofrimentos.

PRIMEIRO PONTO: Jesus revelou-nos os sofrimentos místicos do seu Coração. – Consagramos este mês de Março à meditação dos sofrimentos de Nosso Senhor. É a melhor preparação para a ressurreição espiritual dos grandes dias de Páscoa.
A meditação dos sofrimentos de Nosso Senhor na sua paixão excita nas almas amantes uma terna compaixão. A vista do seu corpo magoado, do seu rosto marcado por uma dor indizível constrange os seus corações, e não podem reter as suas lágrimas. Nosso Senhor é muito sensível a estes afetuosos ímpetos do coração; tocam-no profundamente, e Ele dá em troca graças de amor.
Mas se a vista dos sofrimentos do seu corpo excita a este ponto a compaixão das almas ternas, que impressão pungente não deve produzir nelas o sentimento das dores do seu Coração? Por muito intensos que tenham sido os sofrimentos do seu corpo dilacerado e desfigurado, são pouca coisa ao lado das dores do seu Coração.
Estas dores são indizíveis, um coração humano não poderia participar nelas sem morrer. Estas dores do Coração de Jesus não cessaram, embora seja inacessível aos sofrimentos físicos. Elas continuam de uma maneira misteriosa e que o homem não pode compreender. É para estas dores que Ele deseja uma consolação. Os algozes do Calvário só o crucificaram uma vez, esgotaram a sua raiva. Outros carrascos, mais cruéis do que aqueles, porque conhecem Nosso Senhor e que os tratou como amigos, encarniçam-se a torturar o seu coração.

SEGUNDO PONTO: A sua dor é acrescida pela nossa ingratidão. – Enquanto o seu corpo era cravado na cruz, via a inutilidade do seu sacrifício para um grande número de almas, e esta vista causava ao seu Coração angústias inexprimíveis. Via que esta loucura de amor, de que dava provas tão evidentes, seria incompreendida. Via o abuso sacrílego que tantas almas deviam fazer do seu sangue tão generosamente derramado por elas. Mas o que mais o amargurava, a angústia que tornava a sua agonia tão dolorosa e pungente, era a vista de almas consagradas, às quais reservava tantos privilégios de amor e que deviam servir-se destes privilégios mesmos para renovarem as torturas do seu Coração. Via estas almas, colocadas por Ele como guardas das ovelhas, enriquecidas por Ele com os mais insignes favores, voltarem contra Ele o que tinha feito por elas.
E, no entanto, que é que lhes fez para excitar a este ponto o seu encarniçamento contra Ele?
Em que é que as contristou? Popule meus, quid feci tibi, aut in quo contristavi te? Só teve por elas preferências, atenções delicadas; escolheu-as, separou-as do comum para fazer com que produzissem frutos de graças. Deu-se a elas inteiramente.
Se são padres, deu-lhes o poder de o reproduzirem sobre o altar, de terem nas suas mãos a carne sagrada, distribuiu por eles graças adquiridas com o preço do seu sangue. Em troca desta missão de escolha, tem pressa em lhes distribuir os tesouros de afeição do seu Coração.
O Coração de Jesus transborda de amor, quer a todo o custo derramar este amor em corações bem preparados. Que cruel decepção experimenta muitas vezes! Podem os ingratos de hoje, como os carrascos do calvário, beneficiar desta desculpa que não sabem o que fazem? Os seus golpes, ao contrário, são tanto mais cruéis para o coração de Jesus quanto lhe vêm daqueles nos quais tinha o direito de pretender encontrar amigos.

TERCEIRO PONTO: Jesus experimenta hoje uma tristeza mística de que nós temos de ter em conta. Os sofrimentos do coração, Jesus suportou-os durante a sua dolorosa paixão e foi isso que a tornou tão amarga. O desprezo do amor do seu Pai e do seu, eis o que Ele não pode suportar. É em vão que alguns julgam escusar-se da reprovação de lhe torturarem o Coração com este pensamento que a sua paixão, tendo-se realizado há dezanove séculos, está agora impassível na sua glória. Mas Ele não é uma estátua inerte, uma matéria desprovida de sensibilidade. Já não tem sofrimentos físicos, mas vê, sente, ama. As suas impressões são tais que O fariam sofrer se pudesse ainda experimentar sofrimentos físicos, isto deve-nos bastar.
Não só os pobres ingratos perdem a sua alma, porque transgridem a lei divina, porque pisam aos pés o sangue divino, mas irritam Deus Pai, que é um Deus ciumento, que pune os que desprezam o amor do seu Filho e o seu, os profanadores dos dons do Espírito Santo: Deus ultionumDeus non irridetur. Irritam e fazem sofrer o coração de Jesus, porque nada faz sofrer um coração amante como recolher o ultraje onde se semeou o amor e o amor cheio de atenções e de delicadezas.
Nosso Senhor disse a Margarida Maria, é por amor sobretudo que pede reparação. Pede que se repare por um acréscimo de amor. Já não pode reter mais a sua cólera, se estas almas não forem ajudadas a converter-se, através da expiação e da reparação que uns fazem por elas.

Resoluções. – Senhor, ofereço-vos as resoluções de Margarida Maria: quero amar-vos e reparar por estas almas. Infelizmente, eu próprio sou culpado, ao menos de tibieza. Perdoai-me. Quero daqui em diante ser fiel a todos os meus deveres e cumpri-los por amor a vós, para consolar o vosso divino Coração.
Colóquio com o Coração sofredor de Jesus.