Na próxima sexta-feira, celebraremos a festa do Coração amantíssimo de Jesus. Chamá-lo de “amantíssimo” é até uma redundância, porque, em se tratando de Jesus, o Coração é, evidentemente, pleno de amor, de misericórdia e de bondade. Estas inesgotáveis riquezas, conforme a expressão de São Paulo (cf. Ef 3,8), como que transbordam, jorram sobre toda a humanidade. Este é o tema da nossa reflexão.
Ao considerarmos o Coração de Cristo, não estamos nos referindo ao órgão físico, embora ele o tenha também, enquanto integrante de sua natureza humana. A propósito, considero melhores as imagens que não retratam esse Coração saliente sobre o peito, mas só o insinuam, através do lado perfurado pela lança. Aqui, tomamos o coração como centro explicativo da pessoa. Quando se diz que uma pessoa “tem bom coração”, isto traduz a essência do que ela é. Portanto, aprofundar o conhecimento sobre o Coração de Jesus significa adentrar sua própria “personalidade”.
É interessante notar que essa devoção nasce no momento em que o Coração de Jesus é transpassado, no alto do Calvário, segundo nos narra o evangelista São João (cf. Jo 19,34-35). Mais tarde, chega às primitivas comunidades, é aprofundada pelos antigos Santos Padres e se estende ao longo da Idade Média. Quando os Cruzados foram à Terra Santa, onde tiveram maior contacto com a humanidade de Cristo e com os detalhes de sua vida, achegaram-se mais diretamente ao seu Coração. Sobre Ele nos deixaram reflexões lindas e profundas, tanto teológicas, quanto exegéticas e espirituais.
Nos séculos posteriores, foram surgindo Congregações, Associações e Movimentos inspirados, exatamente, no mistério central do amor de Cristo, que é o seu Coração. Além disso, centenas e centenas de obras sociais pautaram suas iniciativas, segundo o modelo da misericórdia que emana desse Coração.
Diversas passagens da Sagrada Escritura revelam os tesouros do amor divino. Ainda no Antigo Testamento, o profeta Isaías nos fala das fontes que jorram e saciam qualquer sede: “Vós tirareis com alegria água das fontes da salvação” (Is 12,3). O tema da sede é muito profundo na Bíblia, um tema que realmente nos leva a refletir sobre o dom do amor de Deus e a sede que esse amor faz sentir em nosso íntimo, pois esse dom manifesta-se em plenitude através do Coração de Cristo. Ele mesmo convida: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba” (Jo 7,37)... e promete, conforme suas palavras à samaritana: “Aquele que bebe desta água terá sede novamente; mas quem beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede. Pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água, jorrando para a vida eterna” (Jo 4,13-14).
Sede de quê? Todos temos sede do infinito. Nada é capaz de nos saciar nesta vida. “Até os dias mais bonitos, têm o seu ocaso”, dizia Santa Teresinha. Tudo o que se relaciona à realidade material, por mais belo que seja, tem o seu termo, o seu esgotamento... e o seu custo. Por isso, a sede não pára. É uma sede de valores perenes, que possam alimentar a paz e a alegria verdadeiras, dentro e fora de nós. Todos ansiamos por isso e, muitas vezes, não encontramos saciedade.
Freqüentemente, estamos cercados por tanta tristeza, que ela parece, até, nos contagiar. Corremos o risco de ficar abatidos e transtornados pela tristeza dos outros, quando nos reconhecemos carentes das palavras e da força para consolá-los. Entretanto, sempre podemos, e devemos, conduzi-los a olharem para o Coração transpassado do Senhor. Esta é a fonte da qual podemos haurir tudo o que supra nossas carências e socorra nossas misérias.
O texto fundamental, para compreendermos como o Coração de Jesus cuida de nós, é a passagem do Evangelho de São Mateus: “Vinde a mim todos os que estais cansados sob o peso do vosso fardo, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas” (Mt 11,28-29).
O Cristo se apresenta como Mestre em várias oportunidades, mas aqui Ele ensina a partir da sua própria realidade interior, que se evidencia como modelo perfeito para nós: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração”. Quer dizer, seu Coração, sua identidade, sua personalidade sensível sintoniza, numa profunda empatia, com todos os que sofrem, os que se encontram em situação lastimável de desânimo e de cansaço, em perspectiva de derrota diante dos desafios da vida.
“O meu Coração é manso e humilde”, isto é, coloca-se ao rés do chão, nivelando-se a nós. Por isso, aquele que se achega a Cristo Jesus, com confiança, vai colher desse encontro a mansidão, a doçura, a ternura que brotam do seu Coração, transpondo-as para a própria vida e a vida dos outros. Ficará mais aliviado, porque não se pode chegar perto de Cristo sem experimentar a libertação dos jugos que sobrecarregam e escravizam. Sentirá a leveza, o descanso, a serenidade, que são características do próprio Mestre divino.
Por bondade infinita, Jesus nos aplica os efeitos vivificantes do amor que brota de seu Coração. Muitas vezes, porém, nem conseguimos saber o que é bondade, porque bondade não se define, mas se experimenta, desde uma saudação, um aperto de mão, até às coisas maiores que a pessoa possa dar. As crianças são tão bondosas, tão cheias de carinho!... Eu me pergunto: Por que, freqüentemente, se perde isso, pela vida afora?
Quando falamos do amor verdadeiro, será que ele se resume na frase: “Ah, Senhor, eu te amo”? Então, vem a grande pergunta: Mas o que é, afinal, o amor que damos, ou pensamos dar? Será o não pensar em si mesmo? “Amar é dar tudo de si”, dizia Santa Teresinha, “e dar-se completamente ao outro”, na doação até dolorosa, como aquela que Cristo fez durante toda a sua vida.
Transpassado por um gesto absurdo do Centurião Longino, seu lado é atravessado com uma lança, e do pobre Coração, já desfalecido, ainda jorram um pouco de água e um pouco de sangue, que são os símbolos da doação última ou, como diziam os Santos Padres, são símbolos dos Sacramentos e da própria Igreja nascente. Somente São João relata esse fato, mostrando-nos Jesus morto, por amor e de amor (cf. Jo 19,34-37).
Olhemos, portanto, para a chaga aberta do Cristo no alto da cruz – a imagem mais perfeita do amor que brota do seu Coração. Olhemos e não deixemos, jamais, de fazê-lo. Tomando as palavras do profeta Zacarias, São João diz: “Olharão para Aquele que transpassaram” (Jo 19,37 e Zc 12,10). Lá se manifesta a plenitude do amor: o Pai, que dá o próprio Filho, e este, que obedece à vontade do Pai, em mútua doação amorosa, derramada sobre a humanidade: o dom do Espírito Santo.
O Coração não é apenas um símbolo; é epifania da infinita misericórdia de Deus, gesto profético que se cumpre, irrompendo na realidade humana. Esse Coração foi despedaçado, para colocar tudo o que possuía à nossa disposição. Dele brotou a nossa Salvação. Temos que olhar para Ele. O amor verdadeiro - essa sede que não conseguimos estancar, a não ser ao contacto do próprio Coração de Cristo - foi, certamente, a experiência que viveram os mártires e os grandes santos: morreram de amor, num martírio de amor, como tanto o desejava Santa Teresinha de Lisieux.
Lembro-me, ainda hoje, do sermão que o Arcebispo de Aparecida, D. Geraldo Morais Penido, fez quando minha mãe foi sepultada. Ele me convidou a olhar para aquele corpo sofrido de Mamãe, que chegara à idade de 90 anos, apesar de décadas de sofrimento, devido, particularmente, a um câncer. E me disse: “Olhe para a sua mãe e veja o Coração de Cristo, pois este é o único gesto que irá consolá-lo”. Tenho buscado honrar esse Coração, através da doação de minha vida, e reconheço que somente o faço pelas graças especiais de que tenho sido cumulado. Vendo em minha mãe o Cristo crucificado, compreendi que seu sofrimento se transformara em abertura, em fonte inesgotável de felicidade eterna.
No Coração de Cristo, e a Ele associado o Coração Imaculado de Maria, revela-se o mistério de toda a obra da Salvação (cf. Cl 1,26): a Eucaristia e os demais Sacramentos, o Sacerdócio e a própria Igreja nascem desse gesto de doação do seu supremo amor.
Cardeal Eusébio Oscar Scheid
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