Em 1988, o então presidente José Sarney enfrentou a CPI da Corrupção, mas acabou escapando das nove acusações e do pedido de impeachment e continuou no poder
Acusado de comandar um vasto esquema de desvio de verbas públicas, José Sarney (PMDB-AP) corre o risco de ter o mandato cassado. Esse era o tom do noticiário em novembro de 1988, quando o então presidente se tornou alvo da CPI da Corrupção.
Após 11 meses de investigações no Senado, a CPI pedia o impeachment do primeiro presidente civil após duas décadas de ditadura militar. No relatório final, com 24 mil páginas, José Sarney foi acusado de nove crimes. Somente as denúncias de corrupção na Superintendência Nacional da Marinha Mercante alcançavam a cifra de US$ 550 milhões.
Além de pedir o afastamento do presidente, a peça sugeria o indiciamento de quatro ministros e ex-ministros, quatro empreiteiros e cinco escritórios de Brasília.
Boa parte das suspeitas envolveram o Ministério do Planejamento, mas também houve investigação no Banco do Brasil. Os principais ministros tiveram de dar depoimento à CPI, que teve como grande personagem Jorge Murad, genro do presidente que desfrutava de uma sala no 4º andar do Palácio do Planalto. Influente, Murad aconselhava Sarney sobre os rumos da política econômica e interferia na condução de grandes obras, o que levou a CPI a acusá-lo de negociar reajustes com empreiteiras.
Aprovado por unanimidade na CPI, o relatório foi enviado à Câmara, que deveria dar vazão ao pedido de impeachment. Pressionado pelo Planalto, 24 horas depois, o primeiro-vice-presidente, Inocêncio de Oliveira (PMDB-PE), arquivou o pedido sob o argumento de que tal sanção havia sido revogada pela Constituição.
A CPI recorreu ao Supremo Tribunal Federal, que devolveu a responsabilidade ao Congresso. José Sarney continuou no poder.
Texto: Jornal AN / Grupo RBS - 28/07/2009 (www.an.com.br)