O "desenvolvimento" nos silencia e nos mata!

by Portal DEHON Brasil 7. julho 2009 13:57

Amigo(a), já fizeste ou tiveste a experiência de, à meia-noite, sozinho, totalmente sozinho, soltar um grito forte, com a toda a força dos teus pulmões e da tua garganta, e obtiveste como única resposta o silêncio, total e mortal? Ninguém te ouviu, ninguém te ouve, tu não existes para os outros. Tu não contas... Não és ouvido.

De outro lado, temos duas pessoas, homem e mulher, na mesma cama, muito próximos um ao outro. O que há entre os dois? Silêncio absoluto e total. Um não existe para o outro. Aliás, o outro não existe... Alguém está só e completamente só. O que há são apenas gritos silenciosos, mas que machucam profundamente e deixam marcas gritantes!

Gritar e não ser ouvido, ou, gritar para alguém, que está do teu lado, e que não quer ouvir nem responder, é frustrante?
Qual é o próximo passo? O medo, a angústia, o desespero, a depressão, a busca obcecada pela morte. Aniquilar-se. Ser nada. Por quê? Porque para o outro, para a outra pessoa, tu não existes. Triste sina e marca de nossos tempos de “desenvolvimento”! Não somos. Não existimos. Não significamos nada para os outros. Não somos nada para os outros.

No entanto, estamos “grudados”, “plugados”, “conectados”, “ligados” com outras pessoas. Mas, que nada significam para nós. Não existimos para essas pessoas. Somos apenas uma senha. E o que é uma “senha”? Apenas um código secreto, que só nós conhecemos e podemos, e temos direito de usar. Ainda morreremos por senhas! Porque nos isolamos!

A todo avanço tecnológico (leia-se “conhecimento construído”) aplicado à informática costumamos chamar de “desenvolvimento do século”. Mas, que desenvolvimento é esse, que isola e mata as pessoas em sua individualidade? Em sua personalidade? Em sua absoluta identidade única? Em sua singularidade?

Se teu grito solitário, à meia-noite, não obteve resposta, não te assustes. Coisas piores estão por vir. Hoje, as famílias já sentem forte o drama dos “órfãos do computador”, dos “pais sem filhos”. Eles são apenas produtos! Descartáveis, se for o caso. Irão para a casa do vovô, que ainda sabe contar estórias e lendas e encher a fantasia infantil; ainda sabe fabricar uma cuiazinha para chimarrão, que faz a diversão dos guris; sabe a história do passado, antes que viesse o “progresso”. Vovô ainda sabe como preparar um anzol, uma linha para traíra; conhece a isca certa para jundiá. Vovô sabe fazer um bodoque, fabricar e armar uma arapuca, sem comprar nada nas casas comerciais! Vovô faz milagres!

Se tu pesquisares na Internet, não encontrarás receitas de vida longa e feliz, tal como nos testemunham os casais que atualmente festejam 60, 70 anos de matrimônio. Ou não encontrarás nada que te dirá o que fazer e como viver para receber cantos de Parabéns de uma comunidade inteira pelos 90 anos de vida, e o “velhinho” lúcido, aceitando com toda alegria os cumprimentos dos mais jovens que lhe dizem: “Vovô, mais 90 anos!”. E ele, com toda a simplicidade que vida lhe ensinou, responde honesta e alegremente: ”Se Deus quiser!”

Parece ser hora de repensarmos nossos conceitos e nossas estratégias de desenvolvimento. O “desenvolvimento” que aí está, levar-nos-á à morte mais cedo do que nossos avós. E ainda achamos que eles, por não saberem manipular computador, não terem conhecimento de informática, não dominarem métodos informatizados de produção, de controle de estoques, de previsão de futuro, não entendem nada de “desenvolvimento”!

Podem até não entender mesmo. Mas, que entendem de vida e que são sábios, isso parece ser verdade. Diante deles, parecemos idiotas. E, lembremo-nos: quando um idiota e um sábio discutem, quem aprende alguma coisa é o sábio!

Pe. Nestor Adolfo Eckert scj
naeckert@terra.com.br

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Reflexões | Padre Nestor scj

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