Aos poucos, começamos a escutar músicas de natal. Anúncios comerciais. Chocolates e balas. Roupas e versos e presentes. Sentimentos e choros. Crianças emocionadas e felizes (e quase enganadas!). Emoções em dose dupla e tripla. Sininhos e papais noéis de todas as cores. De preferência, as que venderem mais e melhor. Tudo porque novamente vai ser Natal. Natal com N maiúsculo. Natal especial. Natal de Deus.
Quando tudo isso começou?
Natal, entendido como data do nascimento de Jesus, celebrada no dia 25 de dezembro, começou a ser celebrada pela igreja ocidental desde o século IV e desde o século V pela igreja oriental. Isto é, por alguns séculos o mundo viveu sem festejar a data de nascimento atribuída a Jesus. O mundo já viveu sem festejar Natal.
De outro lado, fomos ensinados, e estamos ensinando, que Natal é tempo de paz. Apelamos para o texto do Novo Testamento, em que se lê que na noite do nascimento de Jesus anunciou-se “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens que ele ama.” (Lc 2, 14). Natal, celebração da paz. E o que é paz?
Santo Agostinho (354-430), em seu livro De civitate dei (sobre a cidade de Deus), no livro XIX, capítulo 13, diz que a verdadeira paz não é simplesmente a ausência de conflitos, mas uma “tranqüilidade na ordem”.
Nos tempos de estudo, em Roma, tive um professor que defendia a tese de que hoje não temos paz, mas temos um equilíbrio de terror. Um país não quer provocar o outro ou tomar a iniciativa de atacá-lo porque não tem certeza qual é o volume de força e potencial bélico que o outro tem. Pode ser que ele seja mais forte e, neste caso, tomar qualquer iniciativa pode significar suicídio. Por isso, o terror equilibrado faz com que ambos continuem vivos. Mesmo que com medo.
Na visão de Agostinho isso não é paz. Neste caso, paz e Natal não rimam. Não combinam. Não existem.
Neste tempo Natal do novo milênio (contado a partir do dia do nascimento de Jesus), parece que em nível mundial estamos vivendo dilemas semelhantes. Da terra vizinha onde nasceu Jesus os pobres de hoje, empobrecidos por muitos cristãos do mundo ocidental, ousaram levantar a voz e o vôo de modo violento e, no dia 11 de setembro de 2001, começou, de fato, de modo sangrento, o novo milênio. Que começo! Que aniversário!
No final de 2008, temos apenas uma certeza: 2009 e 2010 serão tempos de grandes incertezas. Serão anos e tempos de crises profundas. Não temos apenas uma época de crise, mas estamos vivendo uma crise de época! O mundo nunca mais será como foi. Os 60 dias que revolucionaram o mundo (setembro e outubro/2008) dificilmente terão uma explicação satisfatória. Há muita gente querendo enganar muita gente!
Neste ano, para festejarmos mais dignamente o Natal de Jesus, deveremos fazer com que a palavra Natal rime com justiça, com respeito à diversidade cultural, com promoção de dignidade para todos, com menos dinheiro e nenhuma arma, com coragem para denunciar as falsas pazes que, ao que parece, devem novamente e necessariamente rimar com norte-americano (a ponto de nos provocarem dizendo que “quem não é a favor de nós é contra nós”). Deveremos ser tão pobres a ponto de termos que ser todos norte-americanos? Promotores de paz com tanques e bombas e mortes? Paz que mata o berço da própria paz?
Dizer “Feliz Natal” para alguém, neste ano, terá um peso muito grande. Compromisso de vida. De vida comprometida. Compromisso de paz. Sem tanques. Sem bombas. Sem morte. Sem bandeira com cores. Sem resquícios de raivas político-partidárias! A cor branca é a ausência de todas as cores.
Que este Natal seja o Natal da cor branca. Da bandeira branca. Da cor da tranqüilidade na ordem. Como Jesus queria. Com vida e “vida em plenitude” para todos. Cristãos ou não. Somos todos pessoas. Filhos de um mesmo Pai.
pe. Nestor Adolfo Eckert, scj
naeckert@terra.com.br