Violência e Política

by Portal DEHON Brasil 21. março 2009 13:26

Introdução.

De modo geral, um dos temas predominantes nas conversas e preocupações das pessoas e dos cidadãos, hoje, no Brasil, diz respeito à (in)segurança. E, quando se fala desse assunto, imediatamente vêm-nos à mente outros dois assuntos coligados, por incrível que possa parecer: violência e política. Por política, os gregos entendiam a arte de bem viver. Viver em “polis”, ou, viver politicamente significava viver bem e de modo bonito, leve, agradável.

Se fizermos uma rápida e até superficial pesquisa hoje sobre o que a população entende por “política”, provavelmente seu entender e sua interpretação ficarão bastante distantes do modo grego de pensar e agir. Em grande parte, os próprios cidadãos são responsáveis por essas distorções; e, de outro lado, os cidadãos que exercem mandatos conferidos a eles livremente (ou não!), por sua atuação e seu modo de viver, colaboram para que a imagem dos chamados “políticos” seja bastante negativa e eles desacreditados.

Política e violência: por que estão intimamente ligados e se influenciam mutuamente? Apresentaremos algumas tentativas de início de reflexão.


1.Violência.

Se levarmos em consideração o senso comum, teremos a idéia de que violência é qualquer agressão física contra seres humanos, cometida com a intenção de lhe causar dano, dor ou sofrimento. Além disso, variam ou podem variar os modos de cometer as agressões. Vejamos o caso dos terroristas, que planejam e articulam engenhosamente as atitudes de agressão contra não apenas pessoas, mas contra bens públicos, escolas de inocentes crianças etc. E, tudo isso em nome de uma idéia, em nome de religião, até em nome de Deus! Na maioria das vezes, os agressores terroristas afirmam que querem atingir apenas alvos militares ou armamentos. Sabemos que não é o que acontece.

O Oxford English Dictionary define violência como o “uso ilegítimo da força”. Contra a vida humana não há violência que seja legítima. Pode ser que, às vezes, a agressão violenta contra uma propriedade possa justificar-se e ser, portanto, legítima. Há formas coercitivas de agir contra pessoas infligindo-lhes danos, dor e morte. Sempre inadmissíveis.

Uma política que deliberada ou conscientemente conduzisse à morte de pessoas pela fome ou doenças pode ser qualificada como violenta. Essa é uma das razões porque slogans como “pobreza é violência” ou “exploração é violência” não são meras hipérboles ou exageros de expressão. Expressam uma verdade de vida pela qual muitas pessoas passam. A violência é sempre vista como um dos piores males. Seja do tipo que for.

 

2.Política.

Melhor do que falarmos em “política” talvez fosse tratar de “teoria política” para, depois, abordar ações políticas. Sucintamente, podemos dizer que “teoria política” é reflexão sistemática sobre a natureza e os objetivos do governo, envolvendo caracteristicamente uma compreensão das instituições políticas existentes e uma perspectiva sobre o modo como elas deveriam (se é que deveriam) ser mudadas.

Didaticamente, outra maneira de entender política consiste fazer três perguntas básicas e ir à busca de respostas a elas. Quando tratamos de política ou de ciência (conhecimento) política, temos como objeto de estudo e investigação o poder. E, as perguntas sobre o poder seriam: donde vem o poder, isto é, qual é a fonte do poder? Em mão de quem está o poder? Como é exercido o poder?

A democracia [“demos” = “povo”] encontra respostas para a primeira pergunta, dizendo que o poder vem do povo. Isto significa: o poder pertence a cada pessoa, a cada cidadão. A pessoa é a fonte do poder. E como ela pode exercê-lo? Para essa questão encontrou-se a saída da chamada “democracia representativa”. Cada pessoa pode eleger, escolher representes seus para exercer o poder que ela delega ao eleito. Os modos como ele é exercido fizeram surgir os diversos regimes, os diferentes sistemas, as mais variadas formas de governo.

 

3.Violência e política.

A que estamos assistindo, ultimamente, no Brasil? Resposta seca e curta: a verdadeiros atos de violência. Por vezes, são atos abertos, explorações claras, ataques vergonhosos aos cidadãos por parte de pessoas escolhidas para representar a população, mas que usam do poder, que lhes foi confiado, para violentar as pessoas. São os momentos em que os interesses pessoais ou de grupos falam alto e muito mais alto do que interesse de toda a população. É o momento em que a palavra “bem comum” desaparece do vocabulário dos “políticos” e as ações são todas em prol do bem pessoal. Além de ser um ataque ao eleitor é uma traição. A pessoa foi eleita para a finalidade de satisfazer os anseios e desejos de muitos e está agora tripudiando, sem escrúpulos, sobre os cidadãos eleitores.

E o que é pior, faz isso tudo sem os eleitores perceberem. Esses “políticos” se especializam em enganar os outros. Seguem Maquiavel em todas as suas orientações. Fazem-se amados e temidos pelos eleitores. Ameaçam os eleitores e seus familiares. Prometem o que não podem cumprir e fica tudo por isso mesmo. Afinal, o poder está com eles, nas mãos deles!

Se hoje há situações gritantes de violência manifestas em forma de fome, de moradia inadequada, de negação ao acesso às informações, de educação de qualidade, de condições de vida digna, em grande parte, deve-se à falta de políticas públicas claras e honestas. Deve-se a situação aos desvios de recursos públicos praticados pelos detentores do poder em prol de interesses pessoais. Os eleitores já não existem mais!

Poderíamos chamar a essa situação de “violência e opressão institucionalizadas”. O sistema funciona se houver pressão, opressão e violência. Sem essas ferramentas nada caminha. É a isso que estamos assistindo. E, muitas vezes, impotentes, com as mãos atadas. Os nossos eleitos continuam a exercer o poder e são obrigados pelo sistema a exercê-lo de modo violento, agressivo, mas trata-se de uma “violência surda”, uma “agressão escondida”. As pessoas são agredidas de maneira sutil e até agradável! Sentem-se na obrigação de agradecer por um pequenino favor que o “meu candidato” fez. É o cúmulo da violência! Por uma carência ou ausência de educação política, de participação consciente, as pessoas pensam que “as coisas são assim porque sempre foram assim e têm de ser assim!” E continuam a alimentar as fontes da violência, opressão, agressão e da exploração de si mesmas.

Parece que o preço mais caro a ser pago por uma violência política institucionalizada seja o da venda da própria liberdade. De tanto ver-se enganada e explorada, a pessoa desiste de ser ela mesma e passa a fazer o jogo de quem detém o poder e o exerce fazendo pressão sobre ela. Para ver-se livre dessa situação a pessoa  vende sua liberdade, desanima e desiste de ser livre. O custo humano dessa opressão e dessa violência é incalculável. É como se a pessoa estivesse mirando-se no espelho e o espelho fosse quebrado, despedaçado, estilhaçado. A imagem que a pessoa tem de si é a do espelho quebrado. Não há como reconstituir-se ajuntando cacos e estilhaços de vidro!

 

Conclusão.

Diante de um quadro de certo pessimismo, resta-nos perguntar: e o que fazer? O que é possível é fazer? Que ações são viáveis?

Parece que a resposta mais cabível vem do lema da Campanha da Fraternidade deste ano: “A paz é fruto da justiça” (Is 32,17). Além de construir condições de justiça, temos de desenvolver em nós mesmos a capacidade e a coragem de indignar-nos evangelicamente diante das situações. Talvez falta-nos a coragem de juntos dizermos que basta de injustiça, que cria e alimenta violência, opressão, enganação.

Trata-se de criar condições para que uma “cultura da paz” seja desenvolvida e vivida. Todos temos direito à segurança. Todos queremos viver em paz. Viver sem medo. Somos gente de paz. Pena que os detentores do poder não pensam e não agem assim. Parece que o poder, que está sendo exercido, porque nós o delegamos a alguém, é um veneno contra nós mesmos. Triste sina de quem acredita que a paz e a segurança sejam possíveis em um país como o nosso! Mas, as coisas podem mudar. Basta querermos. E nós queremos, porque merecemos vida melhor!


Nestor Adolfo Eckert – naeckert@terra.com.br

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