Um poema anônimo, sem título, publicado pela revista espanhola Cristianisme i Justicia (no. 104/2001, p. 3) ilustra o quanto a simplicidade de vida pode ser questionadora para nossa realidade, quando vivemos em uma sociedade ávida por poder e supérfluos, por aparências e reconhecimentos, por títulos e monumentos.
“Nasceu em uma pequena aldeia, filho de uma mulher da roça.
Cresceu em outra aldeia, onde trabalhou como carpinteiro até aos 30 anos.
Depois, e durante três anos, foi pregador ambulante.
Nunca escreveu um livro. Nunca teve cargo público.
Nunca teve família ou casa. Nunca foi à universidade.
Nunca viajou a mais de 300 quilômetros de seu lugar de nascimento.
Nunca fez nada que se associasse à grandeza.
Não tinha credenciais, a não ser ele mesmo.Tinha somente trinta e três anos quando a opinião públicase pôs contra ele.
Seus amigos o abandonaram.
Foi entregue a seus inimigos, e fizeram mofa dele em um julgamento.
Foi crucificado entre dois ladrões.
Enquanto agonizava, perguntando a Deus por que o havia abandonado,seus algozes dividiram entre si suas vestes, único bem que possuía.Quando morreu, foi sepultado em uma tumba emprestada por um amigo.
Passaram vinte séculos, e hoje é figura central de nosso mundo, fator decisivo do progresso da humanidade.
Nenhum dos exércitos que marcharam, nenhuma das armadas que navegaram,nenhum dos parlamentos que se reuniram,nenhum dos reis que reinaram,nem todos eles juntos, mudaram tanto a vida do homem na terracomo esta Vida solitária”.
Convém dizer que o poeta anônimo está falando de Jesus Cristo. Em nossos tempos, marcados por incertezas e buscas, por encontros que resultam em desencontros ainda maiores, pela busca de sentido a nossas vidas, pelo significado que queremos encontrar em nosso trabalho, nas empresas, na atividade particular, no serviço público, afinal, na vida de cada um de nós e das comunidades, o “Solitário” se faz presente e dá sentido. Começando tempo de Quaresma, podemos refletir sobre o que de nossa vida deixaremos como Testamento aos outros.
O poema nos faz refletir e pensar sobre a grande verdade de que o caminho para Deus não passa pelo Poder, nem pelo Templo, nem pelo Sacerdócio, nem pela Igreja, nem pelo Dinheiro (como hoje tantos em seu nome querem), nem pela Lei, sem sequer pela Estética, mas sim, pelos excluídos da história. Esta é a grande revolução. Por vezes, falta-nos a coragem profética da coerência para admiti-la, aceitá-la e continuá-la.
É uma “revolução silenciosa” tão eficaz que muda a história de toda a humanidade. A revolução de alguém que não tinha soldados nem armas. Aliás, alguém que nada tinha. Suas vestes foram sorteadas. A tumba para cair morto, emprestada por um amigo. Suas palavras, guardadas apenas na memória e transmitidas pelos amigos mais próximos. Sua vida, exemplo seguido por tantas pessoas que realizaram seu projeto de existência. Sua ressurreição expressa em forma de vida plena, a grande verdade da história.
E HOJE, POR QUE TANTO BARULHO EM NOME DE QUEM FOI O GRANDE SOLITÁRIO E SILENCIOSO DA HISTÓRIA?
pe. Nestor Adolfo Eckert scj
naeckert@terra.con.br