No silêncio do metrô... um grito!

by Portal DEHON Brasil 28. fevereiro 2009 14:38

Como fazia de costume, nas idas a São Paulo, para reuniões, estudos, aulas, viagens, desci do ônibus, e, quase que automaticamente, dirigi-me à estação do Metrô para ir em busca do local de reunião. O ambiente é sempre semelhante. As pessoas quietas. Observando surdamente umas as outras. Indiferença quase agressiva. Cada qual com seus problemas e suas soluções. Seguindo o caminho de sempre. Não há por que conversar. Deixa que as coisas aconteçam. Uma que outra vez, alguma discrepância de comportamento, mas nada que mereça grande atenção por parte de quem está apenas “andando de metrô”. Estava eu no ritmo de sempre, quando, de repente, uma cena ímpar mexeu com muita gente.

Uma senhora entra espavorida no vagão, com um filho significativamente deficiente nos braços. A criança, marcada por uma série de diferenças profundas, trazidas de nascença, não tem a mínima condição de falar, nem andar, olhos enviesados, magra, parece subnutrida, e com, supostamente, uns 10 anos de idade. Antes que alguém esboce alguma reação, ela grita, com o desespero saltando dos olhos e a raiva jorrando da garganta: “Alguém pode me ajudar, pelo amor de Deus? Tenho este filho, mais gêmeos do mesmo jeito, passando fome”. Todos fomos pegos de surpresa. Quanta coragem! Uma mulher falando, e falando alto, no sacrário do silêncio, que é um vagão de Metrô. E, logo de manhã cedo!

Apenas a mãe impotente acabara de publicar sua angústia, num misto de choro e alguma pitada de esperança, o alto-falante do Metrô dá o aviso seco, duro, objetivo e incisivo: “Não dê esmola. Encaminhe seus donativos para...”, e citava órgãos do Estado encarregados de aliviar as consciências e os bolsos de quem era passageiro naquela manhã, naquele vagão...

A reação de todos foi semelhante. Ninguém se mexeu. Parece que ninguém se assustou com os gritos. Confesso que me senti diferente. Teria eu a coragem de ao menos falar com a mulher? O impulso normal era esse. Mas... Pelas aparências, uma mulher mais pobre e simples, que estava naquele vagão, dirigiu-se à mãe em desespero e entregou-lhe duas ou três moedinhas (talvez as únicas que tivesse). A mulher não as aceitou. Com raiva, lançou-as ao chão, em sinal de protesto à nossa indiferença e de revolta ao aviso do Metrô “Não dê esmola”, e desandou a xingar todos os governantes e passageiros do trem, chamando-nos de fingidos, covardes, hipócritas, sem-coração e uma ladainha de impropérios.

Ninguém reagiu, exceto um senhor, vestido de terno e gravata, com um pacote de papéis desarrumados sob o braço, com ar de entendido das coisas e jeito de advogado, que passou pela mulher, na hora de descer na estação, e disse: “A senhora não pode fazer isso”. Aí sim, desandou a fila de nomes feios e desacatos, mas, nem por isso, inverdades, jorrados da boca da mulher.

Na próxima estação ela desceu. Para ir aonde? Buscar ajuda dos órgãos do Estado, encarregados de aliviar suas desgraças, conforme o aviso? Foi para outro vagão? Conseguir alguma esmola, antes que o aviso seja dado novamente?Fiquei a observar e refletir. Eu estava indo para uma reunião, com um anteprojeto na pasta, de um instituto de solidariedade. Belo projeto. Boas justificativas e objetivos altamente elogiáveis. Mas... e as crianças carentes, filhas daquela mulher do Metrô? Como seria possível ser solidário com elas e sua mãe? Elas, certamente, estariam necessitadas de um pedaço de pão, cama digna e telhado acolhedor. Projetos não servem como alimento. Senti-me questionado e meio angustiado.

O que passava na cabeça dos outros passageiros, daquele vagão, interpelados pelo desespero maternal, naquela manhã? Haveria gente revoltada? Alguns fingiriam como se nada houvesse ocorrido? Continuariam omissos, como forma de dizer que isso nada tem a ver com eles? Alimentariam sentimentos de dó, piedade e comiseração? Alguém  teria até a desfaçatez de fazer uma oração pela mulher e estaria de consciência tranqüila? Alguns teriam vontade e impulso de, efetivamente, fazer alguma coisa, mas não saberiam como? Haveria gente de boa vontade, mas com sensação de impotência para ir à busca de soluções?   Alguém teria um sentimento de indignação diante de situações semelhantes? Alguém dirá que o Estado deve se encarregar dessas coisas e, com isso, permita que as pessoas viajem tranqüilas, sem serem incomodadas por mães pobres e desesperadas, que estragam o início da manhã de cidadãos de bem? (“A senhora não pode fazer isso!”).    

No silêncio do Metrô, numa manhã qualquer da vida, há mães que continuam a gritar: “Alguém pode me ajudar?”. E continuamos nossas viagens, acreditando que tudo está bem, apesar de incômodos que, às vezes, rompem o silêncio frio de nossa omissão... Mas, tudo bem. De vez em quando algum espetáculo diferente torna a viagem mais rápida e tragicamente divertida. As palavras mais ofensivas que a mulher gritara talvez fossem “fingidos e hipócritas”. Fingir que se vive também é viver...(?). E queremos paz! Nestor Adolfo Eckertnaeckert@terra.com.br            

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